Hoje, lançamos mais um número da Folha dos Núcleos sob a direção de uma nova equipe editorial. Cristina Maia, Inês Seabra e Valéria Ferranti, aliadas à Dadá, aceitaram prontamente o convite e dão um novo tom ao bom momento da Nova Rede CEREDA no Brasil. Aproveitamos para trazer um novo layout e novas rubricas que convidam as Coordenadoras e os participantes dos Núcleos a apresentarem a pesquisa e o trabalho que é desenvolvido pelos psicanalistas que integram esta Rede em todo Brasil. Aliados ao registro do “work in progress” realizado nos Núcleos, encontraremos entrevistas, textos traduzidos e de referência ao tema e ao trabalho, além de notícias e comentários em torno das questões da clínica psicanalítica e da criança contemporâneas.

A psicanálise com crianças sempre teve seu lugar no ensino de Freud e de Lacan. A NRC no mundo assegura uma função de informação e de formação para praticantes que não cedem em seu desejo clínico, que estudam, pesquisam, trabalham, constroem argumentos e se deixam ensinar pela lógica dos percursos psicanalíticos. A Nova Rede CEREDA no Brasil integra a Diagonal Americana da NRC, seguindo a orientação do Campo Freudiano, firmemente conduzida por Judith Miller. A NRC-Brasil se integra e se articula aos temas de pesquisa propostos pela AMP e pela EBP, promovendo um trabalho sob transferência que visa o avanço da psicanálise. Os diversos Núcleos brasileiros reúnem psicanalistas que constroem e participam com entusiasmo, deste importante campo de trocas. A Folha dos Núcleos tem a missão de registrar, viabilizar e contribuir para que este trabalho se realize da melhor forma possível. Uma nova etapa na nossa relação com a causa analítica se abre para todos nós, que cada um ponha algo de si!

Cristina Vidigal
Coordenadora da NRC-Brasil

A Folha dos Núcleos, a partir desse mês de novembro, veste uma nova roupagem, adquire um novo estilo.

A princípio, é o verbo: CEREDAr agora é verbo, dá ideia ação, de ato, de movimento... Nesta rubrica, Gustavo Stiglitz, coordenador da NRCEREDA-América, ‘Ao CEREDAr’, nos brinda com uma entrevista em que tece comentários preciosos e complementares sobre a Jornada da NRCEREDA em Buenos Aires, que se aproxima.

Para contribuir com a preparação da Jornada, na rubrica ‘Com.textos’, participantes dos Núcleos apresentam suas produções advindas do trabalho operado intensamente em função da jornada.

‘Pela estrada afora...’, uma rubrica que, em conexão com atividades sobre a criança no Campo Freudiano pelo mundo, traz nesse número, eventos em Buenos Aires, Barcelona, Madrid...

Um boletim dirigido aos Núcleos não poderia deixar de trazer ‘Notícias’ sobre os mesmos. A Paraíba informa sobre eventos que se deram no âmbito do Uni Duni Tê e que deram destaque ao trabalho da NRCEREDA. O Daí Guri, núcleo de Curitiba, anuncia sua Jornada, ‘Criança e os saberes: corpo, gozo e sintoma’, para o próximo dia 09 de novembro, tendo como convidada, Cristina Vidigal, coordenadora da NRC-Brasil.

Na ‘Mesa redonda’, o tema abordado é uma vinheta clínica de Silvia Jacobo, chamada ‘Uma decisão’, e consta também de textos que brotaram da discussão sobre a vinheta.

Prosseguindo na leitura, Cristiane Barreto, colega de Minas nos contempla com um comentário sobre o documentário ‘Criança, a Alma do negócio’, nesta rubrica onde teremos ‘Diversidades’ que abordam a criança, tais como, além de documentários, arte, clips, charges, etc.

Para finalizar este número, o cinema também ganha vida. O verbo vem no princípio e no fim: ‘CINEMAr!’ traz um comentário sobre o filme Elena, que, a partir da indicação de uma colega dos Núcleos, detonou um movimento e uma discussão a nível nacional na EBP.

Esperamos que todos aproveitem a leitura da Folha dos Núcleos como meio de incrementar o debate já em curso, de questões que a variedade da prática com crianças, nos coloca, estreitando, cada vez mais, o laço entre os núcleos.

Boa leitura!!

Mª Cristina Maia Fernandes
Editora da Folha dos Núcleos
NRC-Brasil

Entrevista

Entrevista realizada por Cristina Maia com Gustavo Stiglitz, Membro da EOL/AMP, AE em exercício, coordenador da NRCEREDA - América

Cristina Maia - Como andam os preparativos para a II Jornada da NRCEREDA-America? Como você avalia a integração entre os Núcleos que constam da NRCEREDA-América, no que diz respeito à Jornada?

Gustavo Stiglitz - A princípio, agradeço à Cristina por esta iniciativa que reforça nosso laço, já próximos que estamos de nossa Jornada da NRC-América, que será realizada em 20 de novembro pela manhã, em Buenos Aires, no marco da ENAPOL.

Estamos muito contentes com o trabalho de organização que mostra uma boa articulação entre os grupos quanto à participação, propostas, produção e a resolução de algum contratempo que nos tenha sido apresentado.

Já contamos com os textos que apresentarão os grupos do Brasil, da NEL e da Argentina e os encarregados dos comentários, trabalham sobre eles.

Também estamos recebendo interessantes contribuições que são publicadas no boletim virtual Rayuela.

Em cada um dos três grandes blocos da NRC-América (Argentina, Brasil e NEL), se trabalha com estilos diferentes, mas com entusiasmo.

Podemos prever uma ótima jornada de trabalho sobre a atualidade da problemática em psicanálise com crianças e seus obstáculos, sobretudo na relação com o corpo.

Sabemos que estamos indo na boa direção, vemos os resultados... esse saber nos falta, se mantém em segredo e causa o desejo.

CM - Tomando um tópico do argumento da Jornada, você poderia agora, depois de todo o trabalho preparatório à Jornada, nos responder ‘Que tipo de saber esconde o segredo’?

GS - Ah, isso não vou lhe dizer!!! Hahaha...!

Esse é, justamente, a via da qual partimos.

A princípio, tomamos a ideia de Lacan no seminário 6 sobre a correlação entre o saber subtraído do Outro e a constituição do inconsciente, segundo a qual, um é o avesso do outro.

É a vertente significante do segredo, ligada à experiência do inconsciente e suas formações. Aqui, encontramos a mentira e o encobrimento do sujeito diante do Outro, mas também a certeza da criança de que o Outro tem um saber que lhe é negado.

A partir deste último, a pergunta que você me faz: “Que tipo de saber esconde o segredo?”, podemos começar a responder que ambos – saber e segredo – se ancoram no gozo do corpo.

No seminário 20, Lacan se refere a falar com o corpo: “Eu falo com meu corpo e isso, sem sabê-lo”.

Isso torna mais complexo nosso ponto de partida e nos aproxima do tema do ENAPOL, que dá marco a esta jornada.

É que, então, o segredo já não se refere tanto a um saber subtraído, mas a um saber que falta na relação com o corpo real.

Se seguimos o argumento de Eric Laurent para o VI ENAPOL, temos três consistências do corpo. Tal como diz Lacan no seminário 24, há um corpo simbólico - que é alíngua - um corpo imaginário, que é o modelo que nos permite nos desembrulharmos e um corpo real, que não se sabe o que pode ser. Algumas contribuições publicadas em Rayuela vão justamente neste ponto. À irrupção de um corpo que está mais além – ou mais aquém – do imaginário-simbólico. Nestes casos, introduzir um segredo como versão simbólico-imaginária, produz ou supre, o furo necessário para que o corpo fique tomado na rede significante e no jogo especular. Mas, para aceder ao mais importante que podemos aprender de tudo isto... e, para isso, é preciso ir à Jornada! Lá, se esconde algo precioso.

CM - Em ‘Televisão’, Lacan assegura que mesmo que as recordações da repressão familiar não sejam verdadeiras, é preciso inventá-las, não podemos fugir disso. O mito seria, pois, uma tentativa de dar forma épica ao que se opera da estrutura. Como você pode articular essa afirmativa ao tema do saber e segredo?

GS - Sim, o mito é a forma épica do que se joga na estrutura, em uma tentativa de dar uma versão do impossível, do inarticulável. É uma ficção de ordem universal. O mito edípico – sonho de Freud, como disse Lacan – é isso.

O que nos interessa em psicanálise é como cada um se inscreveu nesse universal. Há formas particulares de se inscrever no universo dos seres falantes, que conformam classes mais reduzidas. As formas da neurose obsessiva e da histeria, por exemplo. Mas, também, as da psicose e do autismo. Versões dos mitos.

Mas, o que interessa a nós, psicanalistas, é com que traço singular cada um se faz um lugar aí. Isto é, a versão singular. Esta sempre se articula em torno de um buraco no saber que, em termos de Freud, está ocupado pelo “núcleo de nosso ser”.

“Segredo” não é mais que um significante que nomeia esse saber em falta. Ainda que haja um saber secreto – como o do oráculo – este não é mais que semblante que recobre e dá um nome possível, um sentido aceitável, à experiência de gozo em um corpo atravessado por alíngua.

CM -Em ‘Radiofonia’, Lacan designa o conjunto dos significantes como um corpo, o corpo simbólico, e diz: ”é a linguagem que dá ao homem, o corpo”. Quer dizer, essa “mordida” da linguagem sobre o corpo, já sabemos que tem efeitos. Em tempos de vésperas do ENAPOL, o que você tem a nos dizer sobre isso?

GS – Dos efeitos da “mordida” do significante sobre o corpo, o principal é o sintoma.

O sintoma é a junção entre as palavras e os corpos, diz Eric Laurent no argumento do próximo ENAPOL.

Mas, como mostra muito bem, Miquel Bassols em seu texto ‘Falar com o corpo sem sabê-lo’, hoje assistimos a uma relação mais frágil entre a palavra e o corpo.

Tanto que, até o ideal científico contemporâneo poderia ter no horizonte, uma relação com o corpo que não perturbe a comunicação entre cérebros.

Esta junção entre o corpo e o significante é delicada, sutil e complexa. O autismo testemunha isto pela via do que falha.

Hoje, encontramos sujeitos cujos corpos estão mais “mordidos” pelo objeto do que pelo significante, produzindo corpos silenciosos, com sintoma, sim, mas que gozam autisticamente no silêncio pulsional. Como fazer falar esses corpos? É o desafio para os analistas do século XXI.

A resposta... é um segredo. A ser revelado na jornada de quarta, 20 de novembro.

Esperamos vocês!!!

EM SINTONIA COM A II JORNADA DA NRCEREDA América

 

Textos Preparatórios à Jornada


A genética não é o destino

Ana Maria Lopes, Cristina Vidigal e Patrícia Ribeiro*

          Harmonizar os descompassos provocados pela alma sobre o corpo, eis um ideal que incitou a produção de um saber que atravessou os séculos. Foucault nos descortina uma parte dessa busca, ao investigar o tratamento dado ao corpo pela medicina da Grécia clássica, dando destaque ao surgimento de uma espécie de bioética que se ocupava das perturbações causadas pela alma sobre o saber do organismo. Caberia à medicina da época, definir um regime de bem viver com o próprio corpo, sob a forma de “um corpus de saber e de regras”.

          Esse ideal de harmonia, que animou o pensamento grego, partia da constatação de uma desmedida nos prazeres do corpo, um excesso, contrariando as disposições naturais. Conforme podemos ler em Os cuidados de si, a medicina grega, segundo Foucault, alertava para o fato de que “se os humanos têm necessidade de um regime que leve em conta, com tanta meticulosidade, todos os elementos da fisiologia, é porque eles tendem, incessantemente, a dele se afastar, pelo efeito de suas imaginações, de suas paixões e de seus amores.”

          Trata-se, portanto, de uma ética amparada em significantes mestres, ou seja, uma ética que visava subordinar o desejo às necessidades do corpo. Devemos a Freud, a constatação de que o corpo histérico é um corpo renitente a essas regras ou, como disse Miller, um corpo que recusa essa ditadura do S1.

Corpos regulados: uma nova bioética?

          Se evocamos a medicina grega e a sua ideia da alma em oposição ao corpo[i], foi para ressaltar o modo particular como essa ambiguidade é tratada pela psicanálise. Podemos afirmar, com Miller, que a psicanálise tem uma biologia que lhe é própria e para a qual o corpo humano não se reduz a sua fisiologia. Isso significa afirmar que ele não é Um, como formulou Miller em sua biologia lacaniana. Ao contrário, ele indica que existem “pelo menos dois corpos distintos: o corpo epistêmico, regulado, corpo saber e o corpo libidinal, de gozo”. Miller destaca, ainda, que esse “corpo regulado é também libidinal, uma vez que ele existe quando o prazer está dentro dos limites desse saber”. O que a psicanálise anuncia ao mundo é a existência de um corpo de gozo “desregulado, aberrante, que não obedece ao eu e se subtrai à dominação da alma”.

          Se hoje podemos, com Foucault, perceber como os corpos eram ordenados por uma ética do mestre, podemos também verificar que existe um prolongamento em nossos dias, do que ele percebera, mas sob outro regime de funcionamento.

          Assistimos ao indiscutível avanço da biotecnociência sobre o corpo, o que não ocorre sem impactos nas subjetividades. Eric Laurent é preciso ao afirmar que, se há uma disciplina que hoje fala sobre os corpos, essa é a biologia. Com a linguagem que lhe cabe, “ela opera”, diz Laurent, “recortando-o em suas próprias mensagens, isto é, em mensagens sem equívocos, diversas daquelas da língua”. Com isso, ele acrescenta, “o que se produz são corpos terapeutizados, geneticamente modificados ou (...) cosmetizados por esses recortes”.

          Essa nova bioética ou, mais precisamente, essa biopolítica que se renova em nosso tempo visa, como desvelou Foucault, a produção de seres vivos dentro de uma ordem de poder. Miller o acompanha propondo, no entanto, pensar em termos de uma epistemopolítica, designando, assim, uma política dos saberes, que disputam entre si a hegemonia na produção de sujeitos assujeitados sob esse saber. Seria inevitável que o corpo da criança também fosse tomado nesse jogo de saberes.

          Na clinica com crianças, presenciamos seus efeitos, com especial destaque para a incidência de um saber dito cientifico, no qual brilha por sua ausência, qualquer hipótese do inconsciente ou de um sujeito que possa dizer algo sobre o seu sofrimento. Ao contrário, neste campo da disputa dos saberes, não se supõe um sofrimento, pois o que o rege é a ideia de des-funcionamento, de incapacidade ou, ainda, a de um déficit a ser corrigido ou compensado. O próprio sujeito é levado a desconhecer seu sofrimento, ao receber uma nomeação pret-à-porter para o que lhe ocorre a partir do estabelecimento de síndromes, transtornos ou “defeitos genéticos” que expliquem sua falha, sua falta particular. Trata-se, em suma, de um “menos” em relação a um imperativo performático calcado em índices supostos de normalidade. Nesta perspectiva, o sujeito tem poucas chances de se formular um problema que lhe diga respeito.

Um caso singelo

          Esse é o caso de T, um menino de 10 anos de idade que, em um certo momento, tornou-se agressivo na escola e passou a ter dificuldades em seu rendimento escolar. Na busca de respostas para essas perturbações, escola e família solicitam uma avaliação neuropsicopedagógica da criança. Assim, a partir de entrevistas e testes, seus sintomas são catalogados sob a rubrica de um distúrbio neuropsíquico. O caso é demonstrativo de que a pratica das avaliações neuropsicopedagógicas e dos diagnósticos estandardizados excluem a dimensão do sujeito.

          Alguns meses depois da separação dos pais, T. passou a apresentar um comportamento agressivo com as professoras e colegas da escola, apresentou uma queda do rendimento escolar, o que motivou a escola a solicitar que os pais realizassem uma avaliação neuropsicopedagógica. O relatório de avaliação neuropsicológica segue o formato de apresentação padrão. Identicação, motivo da avaliação ­─ solicitação pela escola devido agressividade e queda do rendimento escolar ─ seguido por um breve histórico da vida de T, contado pelos pais. Segue a descrição do que é denominado pelo relator de “bateria de testes”: Escala de Inteligência Weschler para Criança – WISC-III, Teste de Personalidade HTP, Teste de Desempenho Escolar – TDE, Escala de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade ─TDAH─ versão para professores, inventário de Comportamentos da Infância e Adolescência ─ CBCL, dentre outros, no total de 15 testes.

          Em suma, a avaliação neuropsicológica conclui pelo diagnóstico de TDAH e TOD ─ Transtorno de Oposição e desafio. Indica-se o treino de estratégias cognitivo-comportamentais, avaliação psiquiátrica e reavaliação neuropsicológica futura. Curiosamente, em um relatório de quarenta páginas, em nenhum momento é descrito o que T pode dizer sobre os seus sintomas.

          Então, é no momento da avaliação psiquiátrica feita por uma médica com formação psicanalítica que T diz de forma extremamente objetiva, e mesmo assustadora, que a neuropsicológa realizou uma série de testes com ele, ficou muito cansado e não que saber de muita conversa. Diz que precisa mesmo é de um remédio, pois aprendeu que a agressividade é uma herança genética. Por isso, é agressivo tal como seu pai. Briga muito na escola, bate nos colegas e até na professora. Não quer ser agressivo como o pai, por isso, precisa de um remédio para tratar do seu problema genético. O remédio vai melhorar a sua atenção e agressividade.

          A psicanalista demonstra para T. que estou surpresa com isso, introduzindo uma interjeição: “Ah, é? Como é isso de genética?”. T fica irritado, e pergunta se ela não sabe o que é genética. Ela diz que sabe, mas quer que ele explique melhor. Ele, então, pode dizer que não gosta de ser agressivo, de bater nas pessoas, não quer ficar agressivo como o pai. Está muito chateado, pois seus pais se separaram e sua mãe queria impedir seu pai de visita-lo. Um dia, o pai queria levá-lo de qualquer jeito, ficou irado e agrediu fisicamente sua mãe. Ela, então, chamou a polícia.

          Essa situação ─ tentativa da mãe em impedir a aproximação do seu pai ─ o fez ficar com muito medo, medo de que a polícia leve seu pai embora. A briga fica voltando em sua cabeça, fica agitado e distraído. Por isso, precisa de um remédio. Então, a analista intervém, dizendo a ele que não considera que ele precisa ser medicado e que não acha que o que está acontecendo com ele seja genético. De forma surpreendente, T. diz: “Acho que sofri um trauma”. A analista lhe diz: “Então, você não precisa de remédio, mas de tratar desse trauma” e propõe que ele possa iniciar um tratamento, onde ele vai poder falar dessas lembranças e medos que o deixam agitado.

          Não escapou à psiquiatra e psicanalista, a quem a criança foi encaminhada para medicação, a absoluta ausência da palavra desse menino no relatório final da avaliação. O que a ela se mostrou evidente foi a manifestação de um olhar que o esquadrinhara a partir de parâmetros esperados de inteligência, atenção, comportamento, etc. Chamou-lhe a atenção também as condutas sugeridas, advindas do relatório final da avaliação: era preciso medicar, treinar, reavaliar. Entretanto, a psiquiatra introduz, nesse breve encontro com T, algo que a avaliação não julgou necessário até então: escutar. Nesse sentido, ela se interessa sobre o que T tem a dizer sobre o seu sintoma, ainda que, a princípio, desconfiado, ele se apresente sem muitas esperanças: “sei que meu problema é genético e devo tratá-lo com remédios”, ele diz. É somente a partir de seu convite para ir além desse discurso que T, aos poucos, pode construir sua própria versão sobre o que de fato o transtornava.

Do transtorno ao sintoma

          Ao receber uma criança em análise, nada sabemos a princípio, das palavras que realmente contam para ela e é preciso dar uma chance para que estas palavras sejam apresentadas e tratadas. É preciso acompanhar a criança na sua formulação, tanto do que faz impasse, como na construção de uma saída. Muitas vezes, uma pergunta, um simples dar lugar à fala do sujeito, um desacordo, uma intervenção sobre um significante específico, pode lhe abrir uma nova chance. Foi isso que se deu neste encontro entre T e a psicanalista. Ele teve a chance de abrir o que se encontrava fechado no “genético” e abordar seu drama familiar. Para T, esse significante obstruía a possibilidade de colocar em palavras, o que emergia sob a forma de angústia. Somente ao ser convidado a falar é que a criança pôde designar de forma aguda, o que se passava, ou seja, nomear como traumático, o modo violento pelo qual ficou marcada a separação dos pais.

          Mesmo em um breve encontro com um analista, como neste caso, sempre partimos dos sintomas como montagens, como formas de capitonagem que, inscritos no corpo ou articulados em significantes, “não podem ser tomados apenas como mensagens, mas, sobretudo, como signos de gozo” (3). O tratamento psicanalítico visa o significante deste ponto de capitonagem, de modo a explicitar em algum momento, os pontos de verdade do sujeito.

Ciência e Discurso da Ciência

          Constatamos, nesse caso, como em tantos outros, como a criança e seu corpo é colocada à mercê de saberes que se intitulam científicos, transformando tudo o que foge a norma em distúrbios. Por conseguinte, ao serem nomeadas hiperativas, opositoras, etc, o que se obtém é uma homogeneização dos impasses próprios a cada sujeito, “confinando sua subjetividade ao mais absoluto silêncio”.

          É interessante lembrar aqui, o que nos esclarece Gilson Iannini, quanto a uma distinção importante a ser feita entre a ciência e o discurso da ciência. Tomando como referência o que Lacan formulou em Ciência e Verdade, Gilson lembra que se a psicanálise deve seu nascimento ao advento da ciência moderna, nem por isso ela deve ser considerada uma ciência. A ruptura entre elas se deve, fundamentalmente, pelo modo como cada uma considera a questão da verdade. À ciência, interessa uma verdade formal, passível de verificação, recusando toda e qualquer verdade fora do sentido, isto é, uma verdade in-sensata. A psicanálise, por sua vez, toma como seu objeto, aquilo que a ciência expulsa de seu campo ou, dito de outro modo, ela recolhe e se ocupa de seus dejetos. “Quando ela reduz o sujeito unicamente ao seu comportamento, ou a sua cognição ou, ainda, a seus estados neurais, a ciência se interessa apenas por seu aspecto formal, sensato, sem nada querer saber do que foge ao sentido formal.”

          Por outro lado, assistimos na clínica, e o caso de T nos ilustra, a presença avassaladora do discurso científico na cultura, associado ao mercado de consumo ou ao que Lacan designou como o discurso do capitalista.[1]Trata-se de um discurso que não figura entre aqueles que Lacan estabeleceu em seu seminário “O Avesso da Psicanálise”, mas que é uma variação do discurso da histérica.

O sujeito e sua verdade

          Em nosso tempo, a criança é defrontada com uma pluralidade de saberes que tenta resgatar uma harmonia de funcionamento dos corpos, como se fosse possível a existência de uma adequação natural no humano. O que distingue o saber psicanalítico dos demais procede da descoberta de que há um inevitável descompasso entre real e simbólico. Diante dessa discordância, desse furo no saber, resta ao sujeito, inventar soluções particulares, seja por meio dos sintomas, sejam por ficções, ancoradas ou não pelo falo. Se é na clínica que enquanto psicanalistas apostamos, podemos fazer uma diferença introduzindo, e mesmo convocando, o que esses poderes tratam de excluir: o sujeito e seu inconsciente. Desse modo, fazemos valer um outro tipo de saber, pois “o saber não se reduz à consciência que se tem dele”. (2) Trata-se de ir na contramão do que propõe o diagnóstico e o tratamento dos distúrbios que afetam as crianças. Trata-se, antes de tudo, do sujeito e da chance de fazer valer sua verdade, isto é, sua forma singular de interpretar e reunir o que lhe foi oferecido, o que se apresentou a ele. Trata-se também de verificar a pertinência de sua resposta, pertinência que o próprio sujeito muitas vezes vem interrogar. Pois seu sintoma apresenta, além de sua interpretação, sua posição frente ao desejo e ao gozo do Outro. Nas palavras de Vicente Palomera, uma psicanálise visa extrair “o significante suscetível de dar ao sujeito, um novo ponto de referência”, ou seja, produzir “novos pontos de capitonagem que a releitura do sintoma pode produzir.”(3)

Referências Bibliográficas:
[i] A alma , diz Miller, seria equivalente ao eu freudiano.
2 Patricia Bosquin-Caroz in Zappeur n. especial “News de l'Institut de l'enfant-Spécial Journée 2013-Programme”
3-3Palomera V., «Comment définir une cure rapide ?», La Cause freudienne n°61, novembre 2005, p. 34-35
*Participantes do Pererê

Segredo, fascinação pela verdade

Daniela Araujo e Vanessa Leite - Carrossel - BA

          Do que se trata quando se fala de segredo e verdade em psicanálise? Faz-se necessário descobrir ou revelar a verdade no tratamento analítico?

          Na VII Jornada do Fórum NRCEREDA, em Barcelona, Marie-Hélène Brousse sustentou que o saber não tem a ver com a verdade, e que a fascinação pela verdade tem um nome: segredo (1).

          O segredo, então, pode ser definido como modo de paixão pela verdade, como um modo de gozar da verdade. Trata-se, conforme Lacan, da verdade tomada como ideal, do qual a palavra pode ser suporte, mas que só se pode dizer com a condição de não levá-la até o fim, de só se fazer semi-dizê-la (2).

          No último ensino de Lacan, figura a expressão verdade mentirosa, segundo a qual a configuração da verdade em relação à mentira é totalmente oposta ao primeiro ensino dele; é o que destaca Miller, considerando que no primeiro ensino, a verdade é o que sanciona o levantamento do recalque, ou seja, da mentira, conceito atrelado à noção de história contínua e ideal. O novo regime lacaniano da verdade é explicitamente marcado, tanto por uma referencia à história quanto por uma introdução de um neologismo vindo afetar esse termo-chave, por meio do qual história torna-se histoeria (...) A histoeria não tem a continuidade da história real (3).

          É com base nestas considerações que se pode dizer que o segredo, articulado à verdade, se constitui como obstáculo ao saber. Ou seja, o segredo como modo de gozar da verdade, obstaculiza que seja construído um saber inconsciente. Fala-se em saber, tanto com relação ao próprio segredo da família e suas repercussões no inconsciente, quanto o saber implicado na aprendizagem escolar. Esta proibição de saber sobre a verdade parental pode generalizar-se a todo saber. A criança percebe que há algo que não é permitido saber e renuncia a aprender (4).

          O segredo é o que une a família, esta que se origina no mal-entendido, no não-dito, sendo o não-dito, um segredo sobre o gozo, sobre de que gozam o pai e a mãe. As relações de família traduzem o modo pelo qual o gozo foi perdido e como outro gozo veio substituí-lo (5).

          Num caso apresentado por Begoña Matilla nesta referida VII Jornada da NRCEREDA, o caso Olga, o segredo familiar girava em torno da filiação. A paciente se identificava com o segredo e se dedicava à verdade como gozo. Esse era seu modo de gozar: mantendo o segredo, assim como sua mãe e sua avó o faziam.

          No primeiro momento de sua análise, Olga manteve o segredo, desenhando castelos medievais de grossos muros habitados por fantasmas aprisionados. A continuação da análise lhe permitiu questionar à sua mãe a respeito de sua linhagem e história familiar. Tal questionamento significou uma interrupção ao tratamento. Anos depois Olga retornou à análise numa posição mais inibida, marcada pelo fracasso escolar e com o segredo “ainda mantido” em um diário fechado à chave, que carregava numa corrente em torno do pescoço.

          Para se desvencilhar disto, seria preciso, que ela fizesse sua investigação e construísse sua histoeria sobre como veio ao mundo, o que até então não pode ser feito em função dela manter-se colada a um segredo que a deixava alienada ao Outro familiar.

          Entendemos, desde Freud, que o saber que conta é o saber sobre o sexual. Mas este saber não é sabido, está inscrito na pulsão. Isto é mostrado por Freud nas “teorias sexuais infantis”, construídas pela criança quando começa a investigar sobre como veio ao mundo, fazendo sua construção a partir dos objetos que dispõe.

          Quando Olga fez sua primeira pergunta a respeito de sua vinda ao mundo, não lhe foi permitido saber a verdade. Entende-se, também com Freud, que algo do incestuoso, estaria aí guardado, trancafiando-se enquanto segredo, o que Miller traduziu como o modo de gozar familiar.

          Conforme o primeiro ensino de Lacan, se por um lado há um saber na pulsão, há outra parte de saber da criança que é apreendida do Outro, como resultado da metáfora paterna, resultando na constituição da fantasia. Este seria um saber em relação ao falo enquanto significante da falta e do desejo.

          Frente a uma pergunta sobre a verdade, a criança não tem mais remédio senão inventar um saber, o que é possível desde a inscrição fálica. Olga parecia padecer de um pai enfraquecido, o que a fez falhar enquanto sujeito desejante, aprisionada no impasse de um segredo. Impasse este que durante muito tempo, manteve-a identificada com o modo de gozar materno, como aparece em sua fala, que a situa entre duas loucas que brigam por causa dela.

          É sabido que o sintoma da criança é tratado como resposta à verdade do Outro, resultante da articulação do Desejo da Mãe e do Nome-do-Pai, através da inscrição de uma suplência simbólica. A criança responde com seu sintoma à verdade do segredo familiar, podendo este representar a verdade do casal parental .

          Olga rechaçou saber a verdade sobre a história familiar, mesmo quando formulou uma pergunta sobre a identidade do avô. Manteve-se gozando da verdade e compactuando do segredo, sendo levada a postergar essa pesquisa, como um modo de seguir sendo amada pela mãe.

          Para avançar no tratamento, frente à pergunta sobre a verdade, seria preciso que Olga cedesse do gozo e então pudesse fazer sua construção de saber. O que vale é a verdade própria construída pelo sujeito, possibilitando a saída da posição de objeto e diminuindo as atuações dirigidas ao Outro.

          Então, retomando a questão inicial, sobre a necessidade de descobrir ou revelar a verdade no tratamento analítico, concluímos que se a criança interroga algo acerca dessa verdade, isto seria tido como um motor para sua produção pessoal, viabilizando uma cessão do gozo articulada ao segredo, no sentido de permitir a sua construção fantasmática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SOSA, J e outros. La eleccíón de los niños em relación al deseo, al saber y El goce. Actas de lãs 7as Jornadas de Forum – Nueva Red Cereda – Barcelona, 1994.
LACAN, Jacques. O saber e a verdade. Seminário, livro 20: mais, ainda, 1972-73. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
Idem 1
MILLER, Jacques-Alain. Assuntos de família no inconsciente. In: Assephallus revista virtual, nº 04, 2007. Extraído da Conferência de Encerramento da 1º Jornada de Psicanálise em Valência, Espanha, 1993.

Adoção sem segredo

Ceres Lêda Félix de Freitas Rubio[1]

          Bruna tem nove anos, chega ao consultório com diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção (TDA) e usando medicação neurológica.

          A mãe professora formada em Letras, trás as queixas da escola informando que a criança não consegue ler, gritos na hora da tarefa, briga em sala de aula e masturbação. Diante do problema escolar a mãe ajudara com estímulos, livros, ensinos sem sucesso. Os pais adotaram a ela e outro bebê, porque a mãe tornou-se estéril em função de um câncer e conta que a criança sabe que é adotada. Reclama que é curiosa para ouvir as conversas do casal, dócil e pegajosa porque fica atrás dela o tempo todo. Suspeita que seu comportamento é manipulador. Acredita que a dificuldade para leitura deva ser hereditária e justifica que os pais biológicos da filha era uma adolescente considerada incapaz e um idoso. Apesar da analista apontar o exame neuropsicológico indicando uma inteligência dentro da média, a mãe não se implica na dificuldade da filha. Não é hereditário, o enigma continua. Para o pai Bruna é nomeada como a “despercebida”, inteligente, mas distraída. Notou-a com dificuldades depois da chegada da segunda filha quando começou a fazer xixi na cama.

          Bruna manca ao andar porque nascera com pés tortos. Conta que mora com os pais na casa da avó materna desde que o avô morrera. Relata a morte do avô ao atender um telefonema da avó para sua mãe solicitando sua presença e ajuda. O relato é entrecortado, com pausas e busca de palavras, termos de linguagem que descrevessem o que ocorrera naquele dia “é... como é mesmo?... não me lembro...é....” , respiração ofegante, pausas para respirar. Manter-se sentada na cadeira não foi possível e precisou ficar de pé. A construção foi realizada como um quebra-cabeça, pedaços de fatos percebidos, escutados por ela. A oportunidade junto a analista serviu para a construção de uma história que representasse simbolicamente o que foi vivido no real e agitava seu corpo.

          A avó tem dificuldade para andar e a criança diz gostar de morar com ela porque gosta de ajudá-la em qualquer circunstância. Ajudar foi o que descobriu poder fazer nessa experiência da perda do avô, um significante produzido a partir da falta do avô e em uma identificação com a mãe, que correu para ajudar a avó. Sobre a escola fala da “dificuldade de ler”, uma leitura silábica, entrecortada com espaços vazios entre sílabas faladas sem sentido.

          Em sua rotina, entre a casa e a escola, surpreende-se ao não encontrar com sua mãe. Concorda que é por isso que fica atrás dela. Vigiá-la para não ser pega pela falta. Uma falta real que presentifica uma falta simbólica. A filha angustia a mãe e esta ausenta-se sem comunicar. A criança em resposta a essa ameaça, defende-se.

          Bruna desenha uma sala de aula, a professora e os alunos em fileiras separadas. A professora é ela própria, nos indicando e confirmando que há um saber na criança, lembrando Miller3. Parece haver em Bruna uma questão à respeito das diferenças entre os sexos, escamoteando tanto a presença como a ausência do falo, e um querer saber sobre a origem dos bebês. Interessa-se pelos livros infantis ofertados com os temas.

          Uma pequena orientação à mãe é realizada, destacando a importância da criança ser informada de suas ausências, justificando a angústia produzida a partir dessa ameaça sem aviso e sobre a presença do significante “ajudar” produzido na família.

          Outro desenho aponta um saber e um segredo sobre sua história familiar de adoção. Desenha duas crianças na parte baixa da folha e com um traço divide a folha ao meio. Na parte de cima, onde lá fez um céu, desenha duas famílias: uma de borboletas e outra de gatinhos, também separadas por um traço. Ao canto, à esquerda, o que chama de dois bebês. Sobre o motivo de aqueles bebês estarem lá no canto responde explicando que é porque estão “perdidos”. Não sabe dizer o porquê, e ao ser dada a possibilidade das crianças abaixo também estarem perdidas, imediatamente nega. - Não! Ela está com sua irmã. Sou eu e minha irmã! Confirma, entretanto, que os bebês estariam aguardando para serem adotados como ela e a irmã o foram. A esse ponto ela liga cada um dos bebês a uma família, a de borboletas e a de gatos. E a analista aponta a necessidade dela desenhar a família daquelas crianças embaixo, porque elas também teriam um pai e uma mãe. Ela concordara.

          Bruna, com a produção e a invenção do “Perdida” em uma história inventada, fala de uma verdade experimentada, um saber sobre sua posição que traduz a sua angústia e aquilo que marca seu corpo demonstrado na agitação na sala de aula, na dificuldade de realizar as tarefas e, que aos gritos, solicita algo. Ajuda? Um saber sobre um segredo familiar instalado e que afeta seu corpo, ao ser revelado nega.

          Neste caso, vemos a demanda contemporânea dos analistas hoje e que obedecem ao discurso da ciência. Uma criança diagnosticada e medicada, mas que mantém os sintomas que angustia a ela e a sua família. Os sintomas que a criança apresenta, até o encontro com a analista não foram interpretados e significantizados para responder à pergunta: Por que uma criança com uma mãe formada em Letras não consegue ler?

          Os sintomas da criança se mantêm porque não foram decifrados. Eles são de outra ordem e revelam um impasse nas relações da criança e seus pais, que encobertos pelo discurso prevalente, os sustentam. A mãe embaraçada com a maternidade, dada a ela juridicamente, crê que a hereditariedade biológica da criança possa ser a responsável pelas dificuldades da filha. Provavelmente, faz a mesma analogia que é realizada consigo própria sobre o que poderia herdar de uma mãe, ela vítima no passado de um câncer e hoje preocupada e responsável por sua mãe que desenvolve uma doença genética grave. O que se herda de uma mãe, de um pai? O que se pode transmitir?

          Herda-se a partir da castração um desejo do Outro que não deve ser anônimo, deve ser transmitido, tendo o Nome-do-Pai como operador, diz Lacan1. Transmitir a relação do significante e significado, e isso é fazer juntar as sílabas e fazer uma palavra ter sentido, efeitos de linguagem, é fazer ler, fazer laço. Lacan nos ensina que a família humana se separa da biológica3. Uma família tem um objetivo fundamental que é a transmissão de uma subjetividade, e isto significa ter a função de tornar criaturas em sujeitos, sujeitos desejantes.

          Resto do casal parental, a criança, no encontro com a analista, apresenta o seu saber inconsciente e nos apresenta o seu segredo contado através da família das borboletas e dos gatinhos: perdida junto com a irmã esperando para ser adotada. Gustavo Stigltz, em seu texto Adoções6, nos ensina que “a biologia, somente, não faz laço. Este sujeito separado do Outro, testemunha que para que cada um se ligue ao mundo, algo mais se impõe, um ato verdadeiro de palavra: adotá-lo no sentido de que um desejo recaia sobre ele”. Isso independente de serem filhos biológicos ou advindos juridicamente. Apontando-nos que o segredo é familiar e é sobre o familiar5.

          Bruna foi adotada, mas a adoção com um laço que vai além dos cuidados ainda está por vir. Aguarda que seja percebida pelos pais, na crença de que há um sujeito ali pleno de direitos, que deseja, curioso, esperando para endereçar o seu querer saber sobre o mundo dos pais, de sua origem, do amor, do outro sexo. Aprender a ler é fazer o laço da adoção amorosa de se inscrever no desejo do Outro e de poder endereçar o seu desejo, consequentemente herdar a Letra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1) LACAN, Jacques – Nota sobre a criança. Outros Escritos. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001;

2) LACAN, Jacques – Seminário 4 – A relação de Objeto. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1994;

3) LACAN, Jacques – O Seminário 16 – De um Outro ao outro. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2006.

4) MILLER, Jacques – A criança e o Saber. Carretel 11;

5) STIGLITZ, Gustavo – Saber e Segredo na infância – Argumento: Jornada Nova Rede CEREDA, Buenos Aires, Nov/2013.

6) STIGLITZ, Gustavo – Adoções – A indecisão da origem. Tradução Bartyra Ribeiro de Castro

Acontecimento de Corpo, Acontecimento de Palavra

Andréa Eulálio, Cristina Vidigal,
Margaret Couto, Patrícia Ribeiro, Tereza Facury *

          Desde os primórdios da psicanálise o corpo teve um lugar de destaque. Freud se viu interpelado por corpos que não respondiam ao que estava previsto pela fisiologia, cujas perturbações não se enquadravam no saber de sua época. Os fenômenos do corpo do sujeito histérico, “disputados entre a unificação sob o regime das pulsões do eu e a multiplicidade das pulsões sexuais”[1], faziam falar a sua divisão ou, conforme expressou Miller, apresentavam-se como “corpos doentes da verdade”[1].

          Em seu Seminário A experiência do real no tratamento analítico (1999), Miller comenta o famoso texto de Freud sobre a cegueira histérica, A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão (1910), no qual o olho é sexualizado pelo efeito do recalque, se emancipando de sua finalidade vital. O órgão é separado da sua função de visão para tornar-se suporte do gozo do olhar. Segundo Freud, “aqueles que são afetados pela cegueira histérica, não são cegos a não ser na consciência: no inconsciente eles vêem” [1]. Trata-se, observa Miller, de um “fenômeno de verdade associado a um fenômeno de gozo” [1].

          O corpo também foi objeto das investigações de Lacan ganhando contornos e acentos distintos ao longo de sua obra. Seguiremos aqui as elaborações de Patrício Alvarez (2103) em seu interessante mapeamento das teorias lacanianas sobre o corpo correlacionando-as à clínica. Segundo ele, podemos dizer que na obra de Lacan existem pelo menos três teorias sobre o corpo.

          Inicialmente haveria o corpo do estádio do espelho constituído a partir da imagem do outro e das normas do Ideal do Eu. Lacan constrói sua clínica das estruturas a partir dessa relação entre o simbólico e o imaginário. Nas psicoses, por exemplo, ao corpo fragmentado do esquizofrênico se oporia à multiplicação das imagens na paranoia. Por outro lado, em uma clínica na qual a norma fálica organiza o corpo, temos o contraponto entre a dissolução imaginária da histeria, “na qual o corpo tem a mobilidade das metáforas e das metonímias”, em contraste “com a fortificação egóica do obsessivo que infla seu narcisismo” [1]. Na fobia aparece o corpo ameaçado pela castração em oposição à perversão na qual ele se traveste ou agrega o objeto fetiche ao outro, “modos de produzir o falo imaginário e desmentir a ameaça de castração”[1].

          Com o objeto a, prossegue Alvarez, Lacan constrói uma segunda clínica do corpo: um corpo topológico no qual há um furo central bordejado pelas zonas erógenas freudianas e ao redor das quais se constrói a superfície do corpo, lugar da identificação especular. A partir da operação de castração, esse furo poderá ser simbolizado como falta, dando ao corpo sua unidade. Nessa clínica pequenos detalhes marcam o erotismo dos corpos e orientam a escolha amorosa. Por outro lado, vemos que, com a introdução do objeto a, fica mais claro compreender a relação entre o corpo e a angústia na neurose e esse objeto e a imagem na psicose na psicose.

          Alvarez ressalta ainda que nessa clínica se inclui o que não estava presente na primeira, qual seja,

          “(...) o excesso que transborda na violência, a cena do acting dirigida ao Outro, as tatuagens que escrevem o gozo no corpo, forjando assim seu acesso à palavra, o fenômeno psicossomático que passa o gozo a estrutura sem a palavra, a angústia deslocalizada, as passagens ao ato, a depressão marcando a queda do desejo, e as adições como acesso imediato a um gozo que degrada o desejo.”

          A terceira teoria lacaniana sobre corpo, conforme ressalta Alvarez, é ainda mais complexa que as anteriores e pode-se dizer que ela está em construção: é a teoria do acontecimento de corpo. O que a distingue não é a imagem nem o furo topológico, mas as marcas inaugurais, contingentes, produzidas no corpo a partir do encontro com lalangue, neologismo com o qual Lacan designa a materialidade sonora da língua, anterior à estrutura da linguagem.

Do sintoma como mensagem a um gozo sem o Outro

          Em seu curso Coisas de fineza em psicanálise (2010), Miller propõe pensar que o inconsciente ordenado pelo simbólico funcionaria como uma defesa contra o gozo. A própria formulação da metáfora paterna, transcrição linguística feita por Lacan do Édipo e de seu declínio, demonstra como o significante enigmático do desejo da mãe é substituído por outro que o traduz, dotando essa incógnita de uma significação no sentido fálico. “O Nome do Pai”, conclui Miller, “é essencialmente o operador que permite ao gozo tomar sentido” [1]. O que a metáfora paterna revela é a resolução do gozo, no sentido de seu apaziguamento por meio do sentido, isto é, do simbólico, caminho a se seguir no curso de uma análise com os sujeitos neuróticos. No entanto, ao associar o inconsciente ao conceito de repetição, Lacan aponta que nem tudo do inconsciente, tal como ele foi pensado por Freud, se deixa resolver pela incidência do Nome do Pai. A repetição permite entrever que essa estrutura comporta algo que lhe escapa.

          Desse modo se esboça a dimensão real do inconsciente pelo resíduo refratário à significação. A formulação, do que mais tarde Lacan designou como objeto a virá nomear esse resto de gozo que não se deixa resolver pelo simbólico, ou seja, pela significação fálica. O que a clínica vai desvelar é que esse percurso norteado pelas manobras da ordem simbólica do inconsciente tem seu limite. Ao lado do isso que fala, há algo que não fala a ninguém, que não se presta a decifração: o singular do sinthoma. Nesse sentido, há um corpo afetado pela linguagem que não fala, mas que constitui signos de gozo, gozo esse que se repete, precisamente porque não fala.

          Como esclarece Pascale Feri,

          “(...) isso não fala, mas isso constitui signo na enunciação que tropeça, na voz que vacila, na emoção que nos agarra sem prevenir; ou, ainda, o sujeito se espanta por não saber como descrever ou nomear tal sensação corporal que, no entanto, lhe é tão familiar. Às vezes, estes signos se delimitam a partir do próprio movimento do tratamento: as palavras não conseguem mais se enganchar em um real e desviar a inércia do gozo” [1] .

          A referência que essa autora faz ao signo deve ser ressaltada pelo que ele evoca dessa presença muda no corpo de um gozo que ultrapassa o registro fálico. O conceito de signo, em oposição ao de significante, é sempre correlativo a uma presença enquanto o significante é articulação. O conceito de sujeito do significante ou de sujeito barrado evidencia essa ausência ou essa falta- a -ser. Se existe ai a presença de um sujeito ele é mero efeito da lógica significante. Entretanto, não é possível reduzir o analisante a esse sujeito do significante, pois alguma coisa nele insiste, sem encontrar nomeação. É importante lembrar que Freud, desde o inicio, se deu conta de que o trabalho de decifração, ou seja, a vertente semântica do inconsciente é inseparável da produção de satisfação ou, em termos lacanianos, de gozo.

O sintoma como acontecimento de corpo

          O avanço efetivado por Lacan em seu escrito Joyce, o Sintoma[1] (1972-73) se fez pela distinção entre essa primeira perspectiva amparada na ideia dos efeitos do simbólico sobre o gozo para considerar um gozo que exclui o sentido. Nesse sentido, Lacan vai identificá-lo como o gozo próprio do sintoma, evidenciando aqui a heterogeneidade entre o inconsciente regido pelo simbólico e o sinthoma, balizado pela dimensão pulsional.

          Assim, isso a que chamou de uma orientação para o singular dá destaque, portanto, ao gozo imanente ao sintoma o que significa que, nessa nova perspectiva, o sintoma é quem responde pela materialidade do inconsciente e não mais a linguagem. A ênfase recai sobre o que esta fora da articulação significante, ao que é irredutível ao saber.

          É nesse contexto que Lacan propôs pensar o que nomeou de ‘acontecimento de corpo’. Não se trata aqui do corpo unificado constituído pelo investimento libidinal da imagem, corpo especular que dá forma ao organismo. Trata-se de um corpo vivo, substancial, no sentido de que o que lhe dá consistência é o gozo e não a imagem e nem, tampouco, a linguagem.

          Disso resulta afirmar que esse gozo é um afeto do corpo, no sentido daquilo que o perturba, isto é, que provoca marcas duráveis no corpo e que fazem sintomas. Assim, à questão sobre como esse afeto, o gozo chega ao corpo, Lacan responde com a fórmula de que o significante é causa de gozo. O acontecimento de corpo são essas marcas que perturbam seu funcionamento, que o “desviam de um suposto gozo natural, primordial, nele veiculando um gozo ‘perverso’, no sentido de sua desnaturalização” [1].

          Em seu seminário La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica (1999), Miller afirma que o sintoma como acontecimento de corpo está estreitamente relacionado ao fato de se ter um corpo. Ter um corpo outorgado e habitado pela linguagem faz com que ele sofra coisas imprevistas. Freud demonstra esse funcionamento extraviado do corpo no texto já mencionado sobre a cegueira histérica.

          Este sintagma ‘acontecimento de corpo’ é uma condensação que se traduz, conforme esclarece Miller, como “acontecimentos discursivos que deixaram marcas no corpo, que o perturbaram e nele produziram sintomas” [1]. No entanto, ele também chama a atenção para o fato de que há que existir “um sujeito que seja apto para ler e decifrar estas marcas” [para que] “ele encontre os acontecimentos que traçaram seus sintomas”[1].

          Falar com seu corpo é o que caracteriza o falasser, resultado da união de um sujeito e da substância gozante, do significante e do corpo. Essa designação falasser, vem enfatizar que esse sujeito tem um corpo afetado pelos efeitos do significante e que nesse sentido ele não é apenas efeito da lógica.

          Miller aproxima esse conceito ‘acontecimento de corpo’ à noção freudiana de trauma. O traumatismo é precisamente um fator ante o qual os esforços do principio do prazer fracassaram, malogrando sua função regulatória. O acontecimento de corpo, tal como pensado por Lacan, produz um desequilíbrio de caráter permanente, mantendo no corpo e na psique um excesso de excitação que não se deixa reabsorver pelo eu. Trata-se de um acontecimento traumático que deixará marcas indeléveis na vida subsequente do falasser.

          Contudo, Miller destaca uma diferença do traumatismo no sentido de Lacan para aquele freudiano. Para Lacan, o nó do acontecimento traumático, não remete a um acidente, porém à possibilidade mesma do acidente contingente, que se produz necessariamente e deixa marcas de afeto. Ele advém da incidência da língua no ser falante, com mais precisão, em seu corpo. Nesse sentido, o afeto essencial é aquele que traça a língua sobre o corpo e não a sedução, a ameaça de castração, a perda do amor, a observação do coito parental, nem o Édipo.

          No artigo intitulado Biologia lacaniana e acontecimento de corpo (2004), Miller precisa esse conceito lacaniano de acontecimento de corpo a partir do que chamou de “afetação essencial, que é a afetação marcante da língua sobre o corpo”:

          “o significante não tem apenas efeito de significado, mas [ele] tem efeito no corpo. É preciso dar a esse termo de afeto toda a sua generalidade. Trata-se daquilo que vem perturbar, fazer marcas no corpo. (…) Quando se trata de efeitos duráveis, de efeitos permanentes, podemos corretamente chamá-los de marcas. Essas marcas permanentes, indeléveis, que marcam um antes e um depois são o que chamamos de “acontecimento de corpo”. Tais marcas vão afetar, perturbar duravelmente o corpo e a rotina de seu funcionamento: elas fazem sintoma” [1].

Acontecimento de corpo e fenômeno psicossomático (FPS)

          A noção de sintoma como acontecimento de corpo nos instiga a pensar o fenômeno psicossomático sob essa nova perspectiva. Stiglitz[1] chama a atenção para o fato de que esse o FPS pode ser tomado como um laboratório para o estudo do laço entre significante e corpo. Para a psicanálise de orientação lacaniana o FPS é o efeito de um ponto de falha que demonstra os impasses da incorporação da estrutura, notadamente pela disjunção entre S1 e S2.

          A articulação proposta por Freud da pulsão como limite entre o psíquico e o somático nos dá balizas para a leitura da incorporação da estrutura, bem como a passagem efetivada por Lacan do sintoma como metáfora para o sintoma como acontecimento de corpo.

          Em sua “Conferência de Genebra sobre o sintoma” [1] (1975), o conceito de lalíngua é retomado por Lacan para enfatizar os efeitos do encontro do significante e do corpo.Ele aborda o FPS pela perspectiva de uma inscrição significante direta na carne. Há, nesse sentido, uma referência ao significante, porém em sua vertente de letra, por definição, seu suporte material. Podemos dizer, portanto, que se o individuo fala é porque há algo escrito, algo material. A função do analista é a de fazer ler, a partir dos enunciados do analisante, essa inscrição ou essa escrita que é a letra.

          Assim, o FPS deixa entrever como o corpo é tomado como campo de inscrição da letra, cifra desse gozo do Outro, como exibição de uma marca, ou conforme propõe Lacan, de um ‘gozo específico’ que decorre dessa fixação. O FPS é algo que está profundamente enraizado no imaginário. A fixação a que aludimos é o acontecimento que não pode ser verbalizado, não pode ser incluído na história retroativa do sentido. Se, conforme dissemos, as marcas do acontecimento de corpo que fazem sintoma guardam o traço de uma opacidade quanto ao sentido, no FPS essa decifração também está em questão.

Schereber e o acontecimento do corpo na psicose

          Assim como Miller recorreu ao texto freudiano sobre o mecanismo dos sintomas conversivos para explicar o acontecimento de corpo, ele também buscou nas investigações de Freud sobre a paranoia o modo como ele ai se apresenta. O exemplo da cegueira histérica mostrou como o acontecimento de corpo se manifesta na neurose pela via de uma inibição ou da limitação de uma ou mais funções somáticas, isto é, desorganizando a relação do sujeito com seu corpo.

          O relato de Schereber em suas Memórias de um doente dos nervos, lido a partir da perspectiva do acontecimento de corpo, permite ilustrar, afirma Miller, a proposição de Lacan de que o gozo do Outro, do corpo do Outro que ele simboliza, não é signo de amor. A relação entre Schereber e seu deus não é fundada no amor, pois o que há é sofrimento e voluptuosidade, em outros termos, gozo. No horizonte, acrescenta Miller, estaria a relação sexual de Schereber feminizado com a divindade.

          A não relação sexual é o acontecimento lacaniano no sentido do trauma, esse que deixa marcas em cada um no corpo, marcas que são sintomas e afeto. Lacan define o amor como o encontro que marca em cada um, em um corpo, a marca de seu exílio da relação sexual: é a marca no corpo do que é mais intolerável, qual seja, “que o objetivo interno da pulsão não seja mais que a modificação do corpo próprio experimentado como satisfação” [1].

          Por outro lado, em seu relato, Schreber nos faz perceber que falar é, antes de tudo, menos um querer dizer que um querer gozar. Desse modo é possível pensar que toda enunciação se realiza tendo o grito como pano de fundo.

          A fala sempre guarda seu lado de “milagre do urro”, já que o próprio grito só pode se depreender tendo o silêncio, a ausência, como pano de fundo. Falamos para tentar esquecer que gritamos no vazio. Neste sentido, falar é sempre efetuar um salto no desconhecido [1].

          Portanto, falar, em ultima instância, é atualizar o traumatismo de nosso encontro com lalíngua. Lacan, em seu seminário As Psicoses afirma que o psicótico fala de alguma coisa que lhe falou. Para Pascale Feri essa afirmativa seria passível de uma generalização:

          Não é isso que cada um de nós não cessa de fazer – falar de alguma coisa que nos falou? Falar é tentar acomodar um espaço para seu dizer na reiteração sem fim dessas marcas que a língua deixou em nós. (...) O acontecimento de corpo inaugural, que está na raiz da subjetividade, não cessa de se repetir, de se reiterar a cada vez que falamos [1].

          Com essas pontuações nos interrogamos sobre como a psicanálise irá lidar com os sintomas que não falam, que não se ancoram no saber do inconsciente, mas que falam com o corpo? E na clínica com crianças, como tratar esse real que se materializa sob a forma de corpos agitados, desatentos, agressivos?

          O último ensino de Lacan demonstra que o tratamento analítico não se reduz ao deciframento dos significantes recalcados, mas pede uma certa reabilitação do signo. É por meio da transferência, por definição calcada no significante, que se pode “como um arpão fisgar um pedaço desse real que escapa a simbolização” [1].

          Camila: da ausência de corpo a um acontecimento de corpo?

          Camila, 12 anos, chega ao tratamento analítico após passar por vários tratamentos psicológicos. De acordo com o relato da avó, as profissionais anteriores que atenderam a criança ficavam muito angustiadas com ela, ora reduzindo o tratamento a deixá-la brincar, ora expulsando-a da sala. Camila é medicada por uma psiquiatra e por uma neurologista em função de algumas crises convulsivas relatadas pela família.

          Quando a recebi, a menina não conhecia letras ou números, apresentava choros repentinos e incessantes tanto em casa como na escola, o que incomodava muito a todos. Além disso, Camila agredia os colegas de escola. Algumas vezes queixava-se que nessa escola havia um buracão, um vulcão, sem conseguir esclarecer nada sobre isso. Sua fala era muito desorganizada, com muitos ritornelos.

          Camila passou a ser cuidada pela avó paterna, após sofrer uma série de maus tratos por parte da mãe, usuária de droga. A criança foi levada até a casa dos avós por seu pai, suja e desnutrida: “A pele da bundinha saiu junto com a fralda quando fui trocá-la de tão assada”, diz a avó. O filho, pai de Camila, disse que ela ficaria lá por alguns dias, mas nunca voltou para buscá-la.

          Na primeira entrevista apresentou-se desgovernada, ficando nervosa quando não conseguia encaixar uma peça do quebra-cabeça que escolheu montar. Abria portas de armários e gavetas parecendo procurar algo. Seus movimentos desordenados já davam mostras da ausência de um corpo organizado. Minha única intervenção nesse momento fora a de dizer a ela que não precisaria ter pressa para montar aquele quebra-cabeça, uma vez que teríamos tempo para isso. Desse modo, tentava colocar algum ritmo em seu movimento.

          Comumente, Camila fazia barulhos com a boca que se assemelhavam ao rosnar de um cachorro. As tentativas de montar o quebra-cabeça vão se repetir em várias sessões. Trata-se do corpo da Moranguinho, personagem de que diz gostar muito. Certa sessão ela me pede para levar o quebra-cabeça, prometendo não perder nenhuma peça. Ela nunca me devolveu esse objeto, mas a avó vai me dizer depois que Camila ficava horas montando e desmontando a Moranguinho, montando e desmontado o corpo dessa outra menina.

          Em uma sessão, entra na sala rosnando com uma revista na mão que folheava na sala de espera. Escolhe entre os brinquedos uma cadelinha e a nomeia de Atrevida. Endereça a essa cadela vários xingamentos, agressões que se repetem durante várias sessões. Diz que vai prendê-la em uma jaula, que vai ligar para a delegacia, etc. Tento temperar essa agressão à Atrevida dizendo-lhe que ela estava comportando-se bem e que não parecia tão atrevida assim. Mesmo assim, Camila bate na Atrevida e diz que vai fazer um corte, um furo entre suas pernas. Diz que a Atrevida não é bem vinda, que vai mandá-la embora e que nunca mais irá voltar. Por fim, pede para levar a Atrevida para sua casa, mas dessa vez digo não. Explico-lhe que era preciso deixá-la no consultório para que eu possa cuidar dela, pois já tinha sido muito batida e maltratada. Camila acaba consentindo e ao sair me dá um abraço.

          Em outros momentos, Atrevida volta à cena: Camila a desenha fazendo uma casa para ela, depois a xinga, atropela e diz que Atrevida ri dela. Nesse dia, produz o que considerei neologismos: diz que vai dar um sugisgão, um mastigão na língua da Atrevida. Com o tempo, Camila desloca seu interesse para outros objetos da sala, principalmente para uma boneca que, a princípio, nomeia como Bonequinha Chorona. Prosseguem os desenhos nos quais representa a Atrevida e neles começam a surgir letras. De seu interesse pelas letras decorre o reconhecimento de algumas palavras simples. Chorona ganha um tratamento diferente da Atrevida, pois dela Camila quer cuidar: tira sua roupa, fala da sua bundinha, limpa-a, chama-a de “meu amor”, dá o bico, banho, comidinha...

          A partir desse momento, apresenta-se mais tranquila nas sessões e a avó confirma essa mudança também em casa. O discurso torna-se mais organizado, conseguido relatar-me, de forma encadeada, seu cotidiano. Pela primeira vez consegue dizer o porquê de chorar na escola: os meninos a chamam de feia.

          Após uma breve interrupção em seu tratamento, em função da saúde da avó, ela retorna. A avó me anuncia que ela estava mais agitada e que havia chorado na escola. Procura pela boneca e por Atrevida querendo atropelá-las. Surge então um novo interesse da menina: o bonequinho da Vivo em meu computador. Isso foi algo novo que passou a se apresentar nas sessões seguintes. Por uma contingência, meu consultório fica em frente ao prédio da Vivo. Em um determinado dia, essa empresa fez uma campanha promocional distribuindo chaveiros com bonecos da Vivo. Recebi alguns e os deixei disponíveis na gaveta do consultório. Camila ficou encantada com o boneco e me pediu para levar para casa.

          Na sessão seguinte, volta a me dizer que chorou muito na escola porque ficara com raiva de todo mundo. Não consegue esclarecer muito mais sobre essa raiva. Aproxima-se da janela e pergunta-me o que aconteceria se ela pulasse lá embaixo. Interpondo-me entre ela e a janela, digo-lhe que ela não iria fazer isso, pois eu não deixaria.

          A partir daí surge seu interesse por bolinhas de “grude” que deixa cair e rolar pelo chão da sala. Continua sua brincadeira com a boneca que agora nomeia como Ruiva e inaugura uma espécie de jogo comigo: ameaçar a jogar objetos pela janela e a me perguntar o que irá acontecer com eles. Ri muito ao dizer que as pessoas vão “trupicar” nos objetos lá embaixo e que se alguém perguntar quem os jogou vai dizer que foi eu e não ela.

          Em uma breve entrevista com a avó, ela me relatou que Camila está falando melhor, não está chorando na escola, mas que seu emocional estaria abalado. Diz que a neta estaria mais introspectiva, pensativa. Diz ainda que Camila às vezes chora, mas que já não é mais do modo incessante ou repentino como era. Além disso, comenta que a menina havia passado mal, sentido tonteira, quase desmaiado. A avó, pensando que se tratasse de outra convulsão, levou-a ao hospital. Examinada pelo médico, ele diagnosticou um mal-estar e não uma convulsão. Pode aparecer então, um corpo que padece de um mal-estar e não apenas de um transtorno neurológico.

          Em uma sessão, ao brincar com a bonequinha, Camila cria uma voz para ela e diz que sonhou com o carrinho da Poly, mas não me conta o sonho. Conta-me também que na escola não quis fazer nada, ficou só olhando para o tempo. Você ficou pensando em algo? pergunto-lhe. Não, Margaret. Fiquei pensando no bonequinho da Vivo, responde. Desenha então a bonequinha Arrumada, nome que dá para seu desenho. Trata-se de um desenho estruturado e organizado, com um corpo, onde antes eram somente rabiscos. Atualmente também cantarola e faz movimentos como se estivesse a bailar.

*Integrantes do Núcleo de pesquisa de psicanálise com crianças – Belo Horizonte

Com ou sem o saber

Cristiana Gallo*

          Rosine Lefort, ao discutir os casos Robert e Nádia, aponta para o que estes casos nos ensinam acerca do saber.

          Em Robert, encontramos um saber que lhe aprisiona, retém, uma vez que, de fato, ele porta esse saber, saber delirante: “O objeto – não caído, para Robert – faz saber e o impõe”. 1.

          Com Nádia, percorremos sua trajetória e sua possibilidade de renúncia ao objeto do Outro. No caso dela, a falta de objeto “apaga o saber, na verdade, um saber que não sabe em proveito de sua verdade”. 2.

          Nessa medida, Rosine, traz uma precisão, ao indicar que “O saber tem a ver com a certeza do objeto. A verdade não é saber e se refere ao sujeito”. 3 e, deste ponto, podemos nos lançar na investigação dos destinos do gozo, dos destinos da satisfação em um falasser.

Um recorte clínico

          A pequena Mara, com cinco anos de idade, reiteradamente, dizia: “eu não vou te contar!”, quando se aproximava da possibilidade de ceder algum relato sobre um acontecimento escolar ou familiar e, particularmente, sobre os medos que a trouxeram ao atendimento. Em alguns momentos, ela acrescentava “não te interessa!”, colocando em jogo, um debate na transferência, onde amor e ódio se alternavam.

          Houve um dia em que anunciou: “vou te contar um segredo!” e sussurrou no meu ouvido, uma breve cena da novela Carrossel, onde duas crianças, uma menina e um menino, se encontravam.

          Foi uma brecha num contexto em que tudo era segredo e ela, a todo tempo, buscava cavar a falta em mim, a falta de um saber que ela portava e eu, não, o que se articulava e se articula com sua descrença no amor ao Outro: como seu segredo poderia me interessar?

Mara ainda segue obstinada em sua posição de se fazer portadora deste saber, em detrimento de sua verdade, mas tem deixado algumas brechas, como neste dia em que deixou entrever, os impasses que tem vivido na relação com os meninos.

          Aí, faço incidir, nossa discussão no Núcleo sobre a sustentação de um modo de presença do analista, frente à presença maciça do objeto. Tal como consta no argumento de nossa próxima Jornada, o analista “oferece ao sujeito, meios dos quais possa servir-se, para encontrar uma saída a sua medida, a do seu desejo e seu gozo de um modo vivível, a certa distância de seu lugar de resto”. 4.

1. Lefort, R. A criança sem o saber, em ‘A criança no discurso analítico’. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1991, p. 46

2. Ibiden, p. 46

3. ibiden, p. 46

4. Argumento da II Jornada da NRCEREDA, Buenos Aires, Nov/2013

*Participante do Núcleo Ciranda – Ribeirão Preto – SP

“VAI! DIZ AS PALAVRAS!”[i]

Eneida Medeiros

          B. chega ao consultório com 4 anos e meio e se mostra falante e agitada. Aos 2 anos e meio é diagnosticada com TDAH, Tricotilomania, e lhe é prescrito Ritalina – que não usa por decisão do pai. A mãe conta que não tem coragem de sair com a filha em lugares públicos porque ela não para quieta, mexe em tudo, corre, além das falhas no cabelo. B. começou a arrancar o cabelo ainda muito pequena; quando bebê dormia no colo de sua mãe e mexia nos seus cabelos. A mãe, com o dia todo ocupado, conta que ao chegar em casa à noite, só queria que B. e sua irmã dormissem para ela descansar. Conta também que B. dava trabalho para dormir, então a ninava no colo até o sono. O pai queria que ela dormisse na cama do casal para que desse menos trabalho. Mas a mãe a punha no berço, e colocava bonecas para lhe fazer companhia. B. passa a arrancar os cabelos das bonecas e depois os seus. Nessa época o casamento ia mal e pouco depois se separaram.

          A criança aparentemente não sofre. Mas seu sintoma toca o Outro parental, especialmente, a mãe e a avó materna. A mãe relata que B. costuma arrancar os cabelos em momentos de “calmaria”, quando começa a cochilar ou está mais quieta. Diz também que sua maior angústia é lidar com as exigências da avó, sua mãe, que aponta o tempo todo o problema da menina e lhe cobra uma atitude.

          A mãe de B. sempre pedia a opinião da analista sobre o problema da filha e o que ela devia fazer. Quando a analista lhe restitui a pergunta, ela começa a falar de sua história, angustia e sofrimento no relacionamento amoroso. Sua fala permite que a analista complete a sequência: “só falta arrancar os cabelos!”

          Nas sessões B. mostra-se agitada e não se envolve com nenhum tipo de fabulação nas suas atividades. Uma delas é subir no muro e se atirar sobre o corpo da analista para cair colando-se a este, depois separar-se e voltar a colar-se. Por cerca de 3 meses é assim. A brincadeira, repetição em transferência, abre a possibilidade para uma mediação simbólica em um corpo transbordante de agitação. Uma mudança significativa para uma operação semelhante em que B. arrancava o fio de cabelo e passava na perna para senti-la doer na tentativa de comprovar os limites de seu corpo.

          Poderíamos considerar o arrancar os cabelos como um acting out, uma maneira de falar o que não é alojado no Outro? Haveria um significante a menos se referindo à pergunta pelo desejo do Outro, um significante em falta que recai sobre o objeto a que responderia ao lugar que B. interpreta ocupar no desejo do Outro? Se o acting é o aparecimento do objeto a em cena, arrancar os cabelos seria se mostrar como objeto dejeto, já que o cabelo fora do corpo perde o recobrimento narcisista da imagem; uma tentativa desesperada de chamado ao Outro.

          Após alguns meses de insistência da analista na circunscrição do espaço do consultório como o de trabalho, B. fica mais de tempo ali e começa outro tipo de brincadeira. Ela dispõe bonecos na mesa e pede para a analista desenhar cada um numa folha: desenhar, colorir e recortar durante 6 sessões, até que, com a folha na horizontal, pede para desenhá-los lado a lado, colori-los e nomeá-los. Depois ela pega um lápis e contorna cada boneco e diz: “Separados! Todos separados!”

          As brincadeiras tornam-se mais elaboradas: B. deita-se no chão, coloca os bonecos ao lado, escurece a sala e acende velas. Às vezes cochicha alguma coisa para si. A analista pergunta: O que você disse? Ela faz sinal de silêncio e diz: “Não pode falar! Não é hora disso”. Logo retorna à atividade de saltar do muro sobre a analista. Começa a brincar mais tempo com os bonecos, mas não se interessa em ouvir ou contar histórias, o que mostra a precariedade de recursos simbólicos.

          Se B. não queria saber de palavras, a saída foi trabalhar o significante pela “via do real”, que ele fizesse ressoar para além do sentido, ao invés de efeito de sentido. Que pudesse aparecer um buraco no real da relação mãe e filha, uma separação; que se deslocasse dos “buracos” na cabeça, para outro que possibilitasse certo escoamento do gozo pulsional vindo do real. Para tanto, a analista empresta seu corpo enlaçando aos poucos os corpos com palavras.

          B. já está em tratamento há quase 2 anos, e repete uma brincadeira por meses: monta uma cabana com móveis e mantas. Esconde-se embaixo com relógio, abajur, almofadas e uma boneca parecida com ela, a quem dá seu nome. E dita as regras: “Vai! Diz as palavras!” A analista deve dar voltas na cabana procurando-a e repetindo: “Onde está B.? Como ela pode ter desaparecido?” Até que se cansa e deve sentar e “dormir de cansaço”, momento em que ela coloca sobre a analista alguns dos objetos escondidos na cabana. A analista deve “acordar e assustar-se” com a aparição dos objetos e perguntar: “Será que eu sonhei? Será que a B. esteve aqui?” Algumas sessões depois, a mãe conta que pela primeira vez, B. acordou de noite com um pesadelo: ela estava num lugar escuro e sua irmã não a deixava sair.

          No fim de uma dessas sessões, quando a mãe chega, encontra um “tufo” de cabelo da boneca no chão e pergunta: “O que é isso? Um monte de cabelo no chão?” A analista se aproxima e pergunta a qual B. pertencia; ela responde: “Tem que colar!” A mãe diz que um dia antes tinha conversado com B. sobre a separação.

          Outra brincadeira proposta é que a analista segure as peças de um brinquedo, que ela tomará e a analista deve resistir. A brincadeira é marcada pela “luta corporal” até que a analista diz que pode dar a peça que ela quiser, que não precisa ser assim. Mas ela insiste que é assim que quer. A analista diz que ela prefere “arrancar” e pergunta: “você gosta de arrancar, né?” B. responde meio sem jeito: “Mas eu não faço isso todo dia” e muda de brincadeira. Neste período a mãe relata que quando deita com B. para dormir, ela pede para que a “puxe” para junto do seu corpo.

          Quando a operação de alienação se efetiva, temos um significante vindo do campo do Outro com o qual o sujeito se identifica, passando a representá-lo. Lacan diz que “a cura é uma demanda que parte da voz do sofredor, de alguém que sofre de seu corpo ou de seu pensamento”[ii]. E não será o sintoma no corpo o que nessa criança faz a função de um significante? Ao mesmo tempo, o diminuto repertório de palavras faz pensar que não há metonímia que permita um deslizamento mínimo da cadeia significante; o que nos faz concluir que a metáfora do sujeito que sustenta a metonímia não se constituiu satisfatoriamente. O que pensar então da operação de separação? As reiteradas tentativas de extração de objeto praticadas pela criança revelam uma inscrição que, embora tenha se efetivado, mostra-se problemática. B. põe em cena o movimento do Fort-Da, na tentativa de operar com a separação[iii]. Puxar, colar e agarrar fazem a oposição ao arrancar e ao deixar-se cair. O corpo que se agita produz um apelo ao Outro para modular sua angústia, ao mesmo tempo em que o cabelo que cai aponta para o objeto que se extrai da operação de separação.

          Lacan[iv] diz que “o primeiro objeto que ele propõe [o sujeito] a esse desejo parental cujo objeto é desconhecido, é sua própria perda – Pode ele me perder?”. Não estaria B. perdida nessa afânise, nesse desaparecimento do sujeito que a coloca como objeto do desejo do Outro? O trabalho de análise segue com a aposta em separar a criança dessa mãe angustiada.

[1] Produção das integrantes do Núcleo de pesquisa e investigação clínica da psicanálise com crianças – PANDORGA, da EBP-SC: Eneida Medeiros, Marise Pinto, Jussara D. Leite, Mariana Zelis, Jussara Jovita, Flávia Cera. O trabalho foi apresentado na VIII Jornada da EBP-SC, em Outubro de 2013, em Florianópolis, SC.

[1] Lacan, J. Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, p.19/20.

[1] Freud, S. “Além do princípio do prazer” (1920). Em: Obras Completas, v.18. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[1] Lacan, J. O Seminário, livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p

 

 

A Psicanálise com Crianças no Campo Freudiano

Jornada Nova Rede CEREDA – América

Corpo, Saber e Segredo na infância

Buenos Aires, 20 de Novembro de 2013

Hotel Panamericano

Gustavo Stiglitz, Elena Sper e Cristina Vidigal (Pela NRCEREDA-América)

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes e Cristina Vidigal

 

ARGUMENTO

          A família como máquina de influência

          A família é a primeira “máquina de influência” sobre a criança. Se os significantes com os quais conta, vêm do Outro, para o pequeno Falasser, esse Outro sabe seus próprios pensamentos. “Os pais sabem tudo e sabem até que a criança inventa sua primeira mentira”.[i]

          O segredo está ligado ao familiar - às vezes inquietante - de alguns pensamentos e, com sua primeira mentira, a criança barra o saber do Outro. E é nesse buraco que o Inconsciente se constitui. Há relação entre esse “não saber do Outro e a constituição do inconsciente”..., “ a ignorância do Outro é, sem dúvida, um traço fundamental... o Outro não pode saber. Há uma correlação entre este não saber no Outro e a constituição do Inconsciente. Um é, de alguma forma, o revés do outro.” [ii] Há gozo no que se diz, mas também no que não se diz. Por isso, quando um segredo deixa de ser segredo, imediatamente a criança encontra outro. [iii]

 

Falasser, Saber e Segredo

          Que tipo de saber esconde o segredo?

          O saber parte do gozo do corpo. Para Freud, esta é a causa da curiosidade sexual infantil e motor das futuras investigações. Para Lacan, o saber – exposto ou secreto – é semblant que recobre e dá um nome possível, um sentido aceitável à experiência de gozo em um corpo atravessado por lalíngua.

          O “tenho um segredo” da criança quer dizer que tem um saber que ele retém e nega ao Outro, que o separa dele e que não vale tanto por seu conteúdo, quanto por descompletar este saber. Assinala o ponto de S(A/), onde o saber desfalece.

Segredos e retornos

          Tanto no segredo que a criança não quer contar, quanto no que não é contado para a criança, trata-se de um gozo inconfessável que toca as relações familiares, afeta o corpo e deixa marca.

          A clínica nos mostra que os segredos de família retornam nos sintomas de pais e filhos, dando lugar às comédias familiares que sempre cobrem um real indizível que se transmite através das gerações. As devastações subjetivas, em função da violência ou do abandono, o real que insiste nas adoções, as questões da sexuação que, em certas ocasiões, fazem vacilar os semblantes das configurações familiares clássicas, que retornos sintomáticos trazem ao consultório do psicanalista?

          A psicanálise nos ensinou que a verdade se exila no deserto de gozo .[iv]

          E o que cai deste exílio, o resto, como dizê-lo?

          O segredo tem o valor de peça faltante em torno da qual se constitui um dizer que contorna este indizível: o saber inconsciente.

          Trata-se de uma ignorância que sabe do S (A/).

Política da psicanálise com crianças versus o recurso à infância

          Ante ao mal-estar na infância, a civilização atual encontra suas respostas no discurso científico, no educativo e no jurídico. Todos ordenados por um ideal do que a infância “deve ser”. Uma resposta francamente delirante, que é o recurso a uma infância ideal. Este recurso consiste em fazer valer o que os adultos supõem que a infância deve ser e apaga o que é, em sua singularidade, para cada criança.

Respeito

          Ao contrário, a posição analítica de respeitar o saber e o segredo da criança é solidária de uma política que tem em conta, a criança como objeto, resto dos impasses do desejo e do gozo nos pais e também do discurso da ciência na civilização contemporânea. O analista tem por função, proteger a criança dos delírios familiares, do direito e da ciência, que podem fazer dela, um puro objeto de gozo da civilização[vi] . Para isso, lhe oferece sob transferência, os meios dos quais possa se servir para armar-se uma saída sob medida, a de seu desejo e seu gozo de um modo vivível, a certa distância de seu lugar de resto.

          Esta jornada de trabalho da Nova Rede CEREDA – América acontecerá no marco do próximo Encontro Americano do Campo Freudiano e será uma ocasião para, afinar a política da psicanálise de Orientação Lacaniana diante do avanço da generalização, da medicalização da infância e da vitimização da criança, quando a faz objeto dos saberes universalizantes. O analista lacaniano deve estar preparado para auxiliar a criança, na defesa de sua singularidade.

Referências:
[1] V. Tausk. Sobre la génesis del aparato de influencia. Trabajos psicoanalíticos. Ed. Gedisa. Barcelona, España.1977. Freud discute este trabajo en Lo inconsciente…

[2] J. Lacan. Seminario 6. Inédito. Clase del 4/3/59. Referencia aportada por Catalina Guerberoff e Inés Ramirez.

[3] Cf. Antoni Vicens. El ser que habla y la existencia del secreto. En Freudiana 66. Revista de la ELP.

[4] J.Lacan. Del psicoanálisis en sus relaciones con la realidad. Otros Escritos. Ed. Paidós. Buenos Aires.2012

[5] G.García. El recurso a la infancia. En Psicoanálisis con niños y adolescentes 2. Depto P. Hans ICdeBA. Alejandro Daumas y Gustavo Stiglitz compiladores. Ed. Grama. Buenos Aires. 2009.

[6] Cf E. Laurent. El niño ¿el resto? En Psicoanálisis con niños y adolescente 3. Depto P. Hans ICdeBA. Susana Glodber y Etel Stoisa compiladoras. Ed. Grama. Buenos Aires. 2011

Bibliografia:

- S. Freud. Tres ensayos de teoría sexual. Obras Completas. Amorrortu Ed. T. 7. B. Aires.1989

- ______. Lo inconsciente. Obras Completas. Amorrortu Ed. T XIV. Buenos Aires. 1989.

- ______. Lo ominoso. O.C. Amorrortu Ed. T 17. Buenos Aires. 1989

- J. Lacan. Seminario 6. Inédito. Clase del 4/3/59. Referencia aportada por Catalina Guerberoff e Inés Ramirez.

- J.Lacan. Del psicoanálisis en sus relaciones con la realidad. Otros Escritos. Ed. Paidós. B. Aires. 2012

- G.García. El recurso a la infancia. En Psicoanálisis con niños y adolescentes 2. Depto P. Hans ICdeBA. Alejandro Daumas y Gustavo Stiglitz compiladores. Ed. Grama. Buenos Aires. 2009.

- E. Laurent. El niño ¿el resto? En Psicoanálisis con niños y adolescente 3. Depto P. Hans ICdeBA. Susana Glodber y Etel Stoisa compiladoras. Ed. Grama. Buenos Aires. 2011

- J.A.Miller. El niño y el saber. Carretel 11

- _______. Cosas de familia en el inconsciente. Lapsus 3. Madrid. 1993

- _______. Observaciones sobre padres y causas. Introducción al método psicoanalítico. Ed. Paidós. Buenos Aires 1997

-V. Tausk. Sobre la génesis del aparato de influencia. Trabajos psicoanalíticos. Ed. Gedisa. Barcelona, España.1977. Freud discute este trabajo en Lo inconsciente…

-Antoni Vicens. El ser que habla y la existencia del secreto. En Freudiana 66. Revista de la ELP

Atividades da Diagonal de Língua Espanhola da NRC

O que sabem as crianças

Barcelona, 08 de novembro de 2013

          As relações da criança e o saber, assim como as consequências éticas e políticas que resultam das distintas formas de abordar este ponto, é o tema a ser tratado nas XII Jornadas da DHH. Durante o período 2012-2013, os grupos que integram a Diagonal realizaram um trabalho de investigação sobre o tema, que tomou como ponto de partida, a intervenção de J. A. Miller, publicada sob o título “A criança e o saber”*. A Jornada permitirá apresentar algumas das conclusões do trabalho realizado sobre um tema sempre atual.

*Cien Digital 11: http://www.champfreudien.org/uploads/document/76f4158aa87f9cb332cc24011932386b.pdf

Ciclo: A prática lacaniana em instituições - Outra maneira de trabalhar com crianças e jovens

DEPARTAMENTO DE PSICOANÁLISIS CON NIÑOS NUCEP

Com a colaboração do Espaço Madrileno de Psicanálise com crianças

Sábado, 19 de outubro de 2012, de 10 às 14 hs.

Docente convidado: JEAN-ROBERT RABANEL

Os autistas na instituição

O Centro Terapêutico e de Investigação de Nonette não é uma instituição qualquer. Lá, se oferece às crianças e jovens adultos, autistas e psicóticos que padecem de sérias dificuldades para estar com os demais, um lugar para viver. Lá, lhes é brindada, a ocasião de alojar-se nas atividades, segundo um trajeto desenhado à medida de cada um, de acordo com a orientação lacaniana da prática entre vários.

Inclusive, na arquitetura dos espaços desse lar da subjetividade, levou-se em conta aquilo que pode tornar-se uma ameaça, como o excesso de ruídos ou de olhares. O tempo em Nonette também é o de cada um, sem as urgências dos programas de aprendizagem porque os que chegam lá, já padecem das consequências de não ajustar-se às normas.

Nonette também constitui uma referência fundamental na prática institucional devido ao esmero no trabalho de elaboração clínica que anima seus participantes, fiéis ao impulso que soube lhes dar o Dr. Tosquelles, eminente catalão republicano, exilado durante o franquismo, que animou os educadores a recrutar jovens psiquiatras lacanianos para fazer frente aos impasses da reeducação.

Era o ano de 1972, entre os três jovens convocados estava o Dr. Jean-Robert Rabanel, que desde então é o seu responsável terapêutico. Em 19 de outubro, teremos a ocasião de escutá-lo, de lhe formular perguntas e de receber suas valiosas orientações.

No Departamento de Psicanálise com Crianças do NUCEP (Novo Centro de Estudos de Psicanálise), foi aberto um espaço para a reflexão e o estudo das questões específicas que preocupam os pais e os profissionais das diversas disciplinas consagradas à infância e à juventude.

Uma série de textos de Jean-Robert Rabanel será remetida aos inscritos. Esses escritos serão comentados e discutidos no Departamento de Psicanálise com Crianças do NUCEP.

Vagas limitadas.

Comissão: Carmen Bermúdez, Blanca Cervera, Vilma Coccoz (responsável), Carmen Cuñat, Marta Davidovich, Ana Jimenez, Rosa Liguori, María Martorell, Gabriela Medin, Alexandra Reznak, Mónica Untemberger.

Tradução: Eneida Medeiros

 

UNI DUNI TÊ – PB

O UNI DUNI TÊ, Núcleo da Delegação Paraíba, promoveu um Mini Curso, ‘Psicanálise com crianças e adolescentes na contemporaneidade’, que foi realizado no dia 28 de setembro, na cidade de Campina Grande.

Com participação ativa dos presentes, pudemos dialogar, debater e discutir a clínica da criança e do adolescente com base na orientação de Freud e Lacan, que nos deixam grandes contribuições acerca do encontro destes sujeitos com os significantes paternos e seus desvencilhamentos.

Para a criança, trata-se da forma de se arranjar com o mal entendido da linguagem, o traumático da sexualidade, ali onde, com os significantes paternos, ela se identifica como objeto a do fantasma materno, denunciando com seu sintoma na sua forma de gozo, o que podem fazer para se sustentar na existência.

Com essa referência, foi possível discutir a sua relação com o inconsciente e como esta relação pode ser útil no encontro com o analista. Ouvir seus sonhos, fantasias, seus atos falhos e angústia, fazendo ali com o corpo, o lugar para o gozo, pudemos concluir esta primeira parte, introduzindo o lugar da criança na família atual, abordando mais pontualmente o trabalho da psicanálise que assegura para elas, a condição de saber num tempo em que nem a família, nem a escola, nem a cultura quer saber dos seus impasses, pois que esperam ali, supostamente, um sujeito pronto.

Na segunda parte do Mini Curso, discutimos a questão adolescente, abordando que a crise que tanto se fala vem tomada de uma angústia. Para a psicanálise, a adolescência não é uma fase, nem um estádio do desenvolvimento, mas um tempo de rupturas, de subversão dos significantes paternos, onde estes sujeitos se vêem confrontado com a falta dos significantes paternos. Despertar do sonho infantil põe em cena a constatação de que o objeto não existe, daí suas frequentes sensações de estranheza: queda dos ideais!!! O Outro é intraduzível, o Outro falha. Contornar este vazio fica na dimensão de novos encontros, novas companhias, outros lugares... longe dos pais.

Sentido e gozo se separam e a significação não dá conta de responder pela falta de objeto. O sujeito se vê num exílio... Contornar este vazio não é vivido pelo adolescente, sem embaraços. O gozo pode vir despontado no ódio de si e no sentimento de vergonha, nas fugas e errâncias.

Com a apresentação de um caso conduzido pela nossa colega Alice Tocchetto e com as colocações dos participantes de casos da literatura, da vida real e do espaço escolar, concluímos nosso curso lembrando que, para Freud, a importância da singularidade só pode ser ouvida se deixarmos a cada um, a escolha de dizer com suas palavras, o que está acontecendo na sua vida, para que assim ele possa entrar em contato com o que constitui seus impasses, sem querer jamais entrar no engodo de educar as pulsões, tão vibrantes na conduta dos adolescentes.

Também na Paraíba, uma Conversação – ‘Corpo, saber e segredo na criança’ – consoante com a temática da Jornada da NRCEREDA, aconteceu no marco da XII Jornada da DPB, ‘O corpo etc & tal’, em João Pessoa, em setembro último. Foi uma manhã de sábado muito fecunda e dinâmica, onde foram trazidos e debatidos quatro trabalhos que, apesar de não serem frutos diretos do Núcleo, vieram de alguns participantes do mesmo. Foram convidadas Ana Patrícia Rocha, colega da Delegação RN, e Vânia Ferreira, da DPB, para comentar e debater os seguintes trabalhos:

- ‘Agitação no corpo: efeitos de um mal entendido’, de autoria de Ana Cláudia Vasconcelos, participante do UNI DUNI TÊ, em C. Grande

- ‘Bia, uma menina esquisita’, de Rosemarie Mooneyhan, de Natal, RN

- ‘Saber, transferência e acontecimento de corpo’, de Marlene Britto, participante do UNI DUNI TÊ, em João Pessoa

- ‘Um corpo de criança embrulhado’, de Mª Cristina Maia

Mª Cristina Maia e Sandra Conrado – Coordenadoras do Núcleo

DAÍ GURI - PR

Uma Jornada do Núcleo Daí Guri acontecerá na sede da EBP/Delegação Paraná, no dia 09 de novembro, a partir das 9 horas. O tema proposto é "Criança e os Saberes: gozo, corpo e sintoma". É uma atividade preparatória para a II jornada da Nova Rede Cereda-América - "Corpo, Saber e Segredo na Infância", em Buenos Aires.

Cristina Vidigal irá nos presentear com sua palestra, "Saber e Segredo da Criança". Em seguida, teremos mesas de trabalhos e discussão de um caso clínico, que será apresentado por Nohemí Brown e discutido por Cristina.

Convidamos todos os núcleos do Brasil a participarem dessa jornada e, se tiverem interesse de apresentar um trabalho escrito, queiram entrar em contato pelo e-mail inezcarneiro@gmail.com . O convite está aberto!

Equipe organizadora: Nohemí Brown, Teresa Pavone, Nancy Greca, Inez Carneiro

A organização conta com a presença de todos!

 

 

 

 

Uma vinheta clinica foi apresentada no Núcleo de pesquisa em Psicanálise com Crianças – Ciranda/SP, no segundo semestre de 2013, de uma criança atendida em uma instituição em Buenos Aires pela colega Silvia Jacobo. Após a apresentação seguiu-se uma discussão, à luz dos textos de Jacques Alain Miller, “O monologo da apparolla” e “O escrito na fala”. Pensar questões da lalíngua, do segredo em sua articulação com o saber era o foco da investigação no Núcleo.

Os comentários da vinheta (abaixo) são de autoria de alguns dos participantes do Núcleo.

VINHETA CLÍNICA

Uma decisão, de Silvia Jacobo

Os acontecimentos que determinaram sua chegada ao mundo, se repetem nos enunciados de E., desde o início do tratamento.

“Briga” e “porrada” são significantes que o antecedem. As porradas desencadearam seu nascimento. “Eu nasci antes porque meu pai bateu na minha mãe, eu sangrei, eu era pele e osso... fiquei quase morto em uma encubadora, fiquei surdo... podia morrer ou morrer, morrer ou viver, mas vivi, me salvei”.

A mãe se pergunta como ele conseguiu viver e o nomeia como “salvo” das brigas com o pai da criança, que abandona a casa no momento de seu nascimento.

Manifesta seu temor de que ele seja esquizofrênico como sua própria mãe que, por sua vez, a defendia, quando criança, da violência do marido, que não era o seu pai. Diz não poder controlar os três filhos, “brigam, se batem, se irritam. É ele quem mais demanda, nunca está de acordo, quer que eu esteja o tempo todo com ele, “não posso dizer não”.

Episódios de autoagressão, dores recorrentes, queixas sobre ser agredido por seus colegas de escola motivam seu encaminhamento.

E. tem oito anos de idade e é o mais novo dos três irmãos, sua mãe o diferencia entre eles, por ser o mais inteligente e afetuoso.

“Levar porrada, ser salvo, estar vivo ou estar morto” se reiteram nos encontros com E.

Mortos vivos, zumbis, clones, sobreviventes, seres que revivem, espectros e fantasmas insistem nos ditos e nos sonhos.

Assinalo que, nessas histórias, sempre tem um que se salva. Dirá, então, que ao nascer estava “cadavérico” e que duas são as causas que o fizeram viver: Deus, que permitiu, e sua própria decisão. Diz que o significado de seu nome, “Deus está conosco”, dá a prova disso.

Seus sintomas põem em evidência a dimensão mais real do corpo: apanha, bate em si mesmo, irrompem dores que só se acalmam na presença da mãe.

E. fez da morte, seu partenaire, seus ditos se desenvolvem em uma catarata metonímica sem ponto conclusivo, entre a vigília e o sono, amarrado ao gozo da mãe.

Relata episódios nos quais se machuca, se bate, desmaia quase sem interrupção, seu mundo se divide entre amigos e inimigos.

As intervenções da analista visam distinguir o que é sonho do que é pensamento e propiciam a ideia de que ele decidiu viver. Este ordenamento tem um duplo efeito: decide escrever contos em que o protagonista consegue viver após livrar-se de inúmeros perigos. E solicita que permaneçam no consultório, fora do olhar materno.

Diz ter um plano para conhecer seu pai que vive na cidade de Buenos Aires, “acho que minha mãe não vai gostar da ideia, então, vou esperar até os 13 anos. Uma vez, ele me ligou e eu o cortei, justamente quando ele ia dizer: “filho...”. Minha mãe pediu que eu desligasse o telefone.”

Uma contingência: seu irmão mais velho decide fechar a porta de seu quarto, não permitindo que E. entre e dizendo que quer privacidade.

E. se pergunta por sua própria, dizendo: “Eu também tenho minhas coisas particulares”. Perturbado, se pergunta sobre suas dificuldades em ter amigos.

Um saber se põe em jogo, um saber que descompleta o Outro fazendo corte e abrindo uma possibilidade nova e singular.

Tradução: Raquel Degenszajn

 

COMENTÁRIO DA VINHETA CLÍNICA

 Maria Luiza Ricupero

Miller, no texto “A Criança e o Saber”, nos diz: “a criança, hoje, é uma questão do poder e nós temos que dizer onde nós nos inscrevemos diante deste espetáculo”.

Espetáculo esse, onde o discurso universitário exprime uma determinada tirania de saber científico sobre a infância, fazendo da criança, um objeto de saber e de gozo do Outro. Dessa forma, a verdade do sujeito é descartada, na medida em o sujeito fica dissociado de seus significantes primordiais, S1.

A Psicanálise, diferente de outras práticas, respeita o saber da criança e entende que este tem uma relação com o gozo. O caso de Silvia Jacobo, discutido no Grupo Ciranda, ilustra através da intervenção da analista, a possibilidade do sujeito elucubrar um saber que possa lhe servir.

E. tem 8 anos e é encaminhado para tratamento  por episódios de autoagressão, dores recorrentes, queixas sobre ser agredido por seus  colegas de escola  e pela impossibilidade de permanecer no ambiente escolar. Briga e porrada são os significantes que o antecedem .

Os sintomas apresentados por E. põem  em evidência, a dimensão mais real do corpo: apanha, bate em si mesmo, irrompem dores que só se acalmam na presença da mãe.

No texto ‘Duas Notas sobre a criança’, Lacan nos explica que uma das vias do sintoma da criança, diz respeito à subjetividade da mãe.  E. parece ocupar com seu corpo e ser o lugar que sua mãe o coloca na sua fantasia ,de morto.

E. fez da morte, seu partenaire, seus ditos se desenvolvem em uma catarata metonímica sem ponto conclusivo, entre vigília e o sono, amarrado no gozo da mãe. Relata episódios nos quais se machuca, se bate, desmaia quase sem interrupção, seu mundo se divide entre amigos e inimigos.

Fazendo uma articulação do caso clínico com o texto de Miller, “O Monólogo da Aparola”, pode-se pensar que os ditos de E. estão mais do lado da aparola do que da fala.

Miller nos indica neste texto, que a fala esta situada dentro do contexto do seu primeiro ensino, cujo princípio é um querer dizer. A fala implica um diálogo e, portanto, está sempre articulada ao Outro, com uma determinada estratégia de sentido, de busca de significação. Já a aparola é um conceito que faz parte do último ensino de Lacan. Segundo Miller, a aparola é o que se transforma a fala quando esta é dominada pela pulsão. Na aparola, não há diálogo, não há o Outro . É uma fala que não garante a comunicação, mas o gozo.

É o que evidencia E. com sua fala repetitiva,  sem endereçamento ao Outro. A intervenção da analista vai na direção de colocar um limite à catarata metonímica, ou seja,  um limite ao gozo que fala.  Miller nos explica ainda, que é preciso barrar o monólogo autista do gozo, pois no nível da fala como não diálogo, o real não está assegurado.

A partir desta intervenção, E. decide escrever contos em que o protagonista consegue viver após livrar-se de inúmeros perigos e solicita à analista que os contos permaneçam no consultório, fora do olhar materno.  É o momento do tratamento onde E. passa de objeto à posição de sujeito articulado ao discurso, ao preço de poder consentir com alguma perda de gozo. Descobre que pode esconder um saber da mãe. A falta no Outro o possibilita modificar a particular relação que tem com o seu gozo. E., após algum tempo, pode nomear seu gozo, dizendo que ele era  um covarde na sua relação com os meninos da escola.

 

Referências Bibliográficas

Lacan, J. Duas Notas sobre a criança.

Miller, J.A. Cien Digital 11  A criança e o saber.

Miller, J.A. Opção Lacaniana 9  O Momólogo da Aparola.

Uma outra posição - Lucicleia Lopes

Miller, em O Monólogo da Aparola, aponta para a diferença entre a fala, marcada pelo diálogo, e a aparola, que serve ao gozo, sem intenção de dirigir-se ao Outro, tratando-se, portanto, de um monólogo.

Na vinheta clínica, nota-se que nos atendimentos há uma “mostração” de Emanuel e uma repetição de relatos de sonhos sem tentativa de enlace. Embora houvesse dois falantes, não havia diálogo; ao contrário disso: um monólogo, falas tomadas pela pulsão.

E qual a posição da analista? Além de propiciar a ideia da decisão dele de viver, a intervenção da analista de não dar consistência à aparola, dizendo “é preciso diferenciar sonho de pensamento", faz, de certa maneira, um limite ao gozo e teve valor de interpretação.

Quando falamos em interpretação psicanalítica, de acordo com Miller, há uma possível na fala e outra possível na aparola. Na fala “quando é a verdade que fala no lapso, no ato falho, a interpretação tem seu lugar próprio. Ela tem por finalidade, fazer surgir um efeito de verdade que, seja qual for a maneira com que ele seja modalizado, contraria o efeito de sentido”. Quando se trata de aparola, é o gozo que fala e, nesse caso, interpreta-se a verdade, há interpretação do gozo.

Nota-se que a interpretação com o objetivo de dar limite ao gozo e na tentativa de reposicionamento desse sujeito diante do gozo da mãe, foi contrária à obtenção de sentido, que seria facilmente alcançado com pergunta sobre "o que o sonho quer dizer", por exemplo. Haveria uma busca por respostas do imaginário e, possivelmente, manteria o sujeito na mesma posição.

Emanuel dá indícios de uma separação da demanda do Outro: “decide escrever contos em que o protagonista consegue viver após livrar-se de inúmeros perigos. E solicita que permaneçam no consultório, fora do olhar materno” (fala da analista). O que parecer dizer de uma posição de uma outra posição...

Comentários da vinheta clinica - Lilian Beig

          Para Lacan, o desenvolvimento do sujeito é tomado em sua estrutura e, no caso de crianças, os objetos pulsionais não tem a mesma incidência de acordo com a idade e, sim, de acordo com suas possibilidades de se separar do gozo da mãe.

          Em ‘Duas notas sobre a criança’, Lacan diz que a “criança se inscreve no fantasma da mãe e que captura no fantasma materno, por pouco um defeito eu ele tenha, uma marca, uma doença, por excesso ou por defeito, uma marca especial, que pode vir a justificar a existência para sua mãe que pode deixar a criança presa definitivamente no fantasma materno. (Laurent, Opção Lacaniana n.10 - “Existe um final de análise para as crianças”)

No caso exposto por Silvia Jacobo, Emanuel entrega seu corpo como objeto, totalmente preso ao fantasma materno.

Silvia, com suas intervenções e aproveitando muito bem as contingências que se davam durante o tratamento, conseguiu fazer com que esta resposta dele ao fantasma materno fosse, no mínimo, abalada.

O caso teve outras intervenções que também vão ao encontro do que estamos estudando.

O discurso de Emanuel pode ser equiparado a um “monólogo da aparola”, um monólogo autista. Silvia, ao intervir, perguntando de que ele falava, teve o efeito de uma intervenção, de limitar este monólogo autista do gozo.

O que é relevante neste caso é o efeito da interpretação analítica, que limita o gozo, é finita.

LAURENT, Eric – Existe um final de análise para as crianças – Opção Lacaniana n.10, p.24 - 1994.

MILLER, Jacques Alain – O monólogo da aparola – Opção Lacaniana On-line numero 9

 


DOCUMENTÁRIO: Criança, a Alma do negócio

Pequena apresentação de um documentário.

Cristiane Barreto*

Sem interrogar, diferenciando-se da pontuação circunscrita neste título, um pequeno documentário reúne pais, especialistas de diversas áreas – doutores em comunicação, advogados, sociólogos, psicólogos, pedagogos, dentre outros - e, sobretudo, crianças, na tentativa de demonstrar os efeitos da publicidade e suas prováveis consequências.

O nome do pequeno documentário, dirigido por Stela Renner e produzido pela “Maria Farinha Filmes”, veiculado pela TV Cultura, é: “Criança, a alma do negócio”. E pode ser assistido no seguinte endereço eletrônico:

http://www.youtube.com/watch?v=ur9lIf4RaZ4

No linguajar corriqueiro, estabeleceu-se um jargão “A propaganda é a alma do negócio”. O título do documentário, ao substituir a palavra propaganda por criança, enuncia claramente a aposta e apelo dos empreendimentos do capital e a sua via publicitária.

A hipótese sustentada pelos especialistas, cujas falas guiam o roteiro, é que um estilo de viver é imposto. A publicidade, sobretudo no Brasil, teria como alvo principal, o público infantil. Explora-se o que os dados demonstram: hoje em dia, as crianças definem as compras e gastos familiares, “80 % da influência de compra vem da criança”. Uma versão curiosa do “sua majestade o bebê”.

Destaca-se a exacerbação do consumo que delimita formas do estabelecimento dos laços e estilo de vida na infância contemporânea.

O documentário, sobretudo, se interessa por alertar a inexistência de uma política ou estratégias de regulação no Brasil, da propaganda direcionada ao público infantil, diferente do que acontece na maioria dos países do mundo. Vigora, na maioria dos países, por exemplo, a proibição da exibição de propaganda nos intervalos reservados aos comerciais durante os programas destinados exclusivamente às crianças. Um depoimento introdutório formula a equação: "Se eu faço com que uma criança seja ‘precoce’, tenho um consumidor mais rápido”. Precoce também poderá ser a passagem de consumidor a consumido, que assola os tempos atuais e costura as vestes dos novos sintomas.

“A infância está ficando pra trás”..., diz um dos entrevistados, introduzindo assim, uma curiosa nuance reflexiva, afinal, a infância é mesmo algo que fica para trás, é tempo inaugural, criva a demarcação dos tempos, estabelecendo um passado. Contudo, a lástima colocada em cena na frase tem menos a ver com a nostalgia, e mais com a denuncia da “adultalizacão” do universo infantil. Numa espécie de rechaço às principais características atribuídas à infância, destaca-se na conversação estabelecida com elas mesmas no vídeo, a preferência por comprar, ao invés de brincar, o distanciamento do contato com produtos não industrializados, o desconhecimento do mundo animal – o que implica em não saber o nome dos bichos - a preocupação exacerbada em ter, adquirir objetos, como sapatos, cosméticos, celulares.

A preocupação dos pais (na verdade apenas mães participam) em como educar, que rumo dar às demandas, como lidar com o que não têm para dar, prevalece. Os educadores do campo da pedagogia exemplificam ações que tentam impedir a massificação dos modelos, inclusive, literalmente, modelos de sapatos que impedem de correr, no recreio, por exemplo. ‘Valores’ que se voltam inteiramente para o consumo. Qual o custo dessas empreitadas da publicidade?

Entretanto, é nos pequenos recortes que acompanham a relação das crianças com seus objetos eleitos, o que o documentário traz de mais interessante. Sapatos, celulares, frequentações dos salões de beleza... séries semelhantes, intercaladas por exemplos de propagandas que seduzem com promessas de ‘empoderamentos’. “Qual é a Susi dos seus sonhos? Você pode. Você é a Susi”. Bonecas modelos. Não deixa de lado a vertente masculina, na qual, por exemplo, o tipo de sapato que calça um garoto, muda de cor, e revela seu poder de encanto. E abarca também o sofrimento de quem não tem. Delicado e sutil é o sofrimento revelado através da fala de uma das meninas. Ela diz: “Mexe muito, até com o coração. Porque quando a pessoa vê alguma coisa ali, quer , gostou, ... a única coisa que a pessoa quere ir lá na loja e comprar”. Eu acho que... é mais fácil a criança ir lá, pedir pra mãe e a mãe não ter. E aí o coração da criança fica... até vontade de chorar a criança tem”. Não apenas o efeito segregador está em cena, está presente de maneira elucidativa, as transformações postas pelos discursos de cada época. Faz ver que algo dos problemas cruciais e as saídas possíveis aos impasses do feminino prevalecem, modificados. Nesse, o apelo da menina dirigido à mãe e a constatação de que a mãe não tem as respostas, aparece travestido de não ter o objeto que o sujeito supõe faltar ao ser – e que ele viu num comercial de televisão!

A civilização traçou uma curva sinuosa, indo da valorização dos ideais para a vertiginosa queda dos mesmos. O traço “hipermoderno” é a satisfação imediata que impera no encontro dos sujeitos e dos objetos de consumo, colocados à disposição do mercado. A distância e o esforço são diretamente proporcionais ao espaço localizado entre as mãos e as prateleiras. Cada época fabrica seus sintomas. Os nossos são os sintomas de vitrine, das prateleiras. Anônimos, em massa, em série e com etiquetas – ora falsas!

Crianças em comerciais, comerciais para criança. Crianças comerciais.

Como preservar o espaço referido por Freud na Conferência XXXIV de 1932, como o das “particularidades psíquicas da idade infantil” e suas marcas decisivas?

 

MONUMENTO EM SÃO PAULO

 

Tribuna Livre da Criança

Estação Metrô Brás, São Paulo/SP

Bairro: Brás

Região: Leste

              Artista: Criação coletiva

Sobre o monumento

No contexto do acervo de arte contemporânea instalado nas estações do Metrô de São Paulo, o mural existente na estação Brás, singulariza-se pela forma como foi produzido, ou seja, não houve participação direta de nenhum artista plástico, mas de 24 crianças dos grupos de artes plásticas, assistidos pela Secretaria de Estado do Menor. As crianças, em conjunto, num processo de livre criação, desenharam e pintaram as imagens integrantes do mural, sobre superfície de tecido e, em seguida, o trabalho final foi reproduzido em cerâmica, sob a supervisão de técnicos na Cerâmica Aruan. O mural, produzido e instalado em outubro de 1991, atua como pano de fundo de um grande palco, destinado a eventos culturais e sua entrega ocorreu por ocasião das comemorações da Semana da Cidadania e do Dia da Criança. [Acervo da Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô]

Site: http://www.monumentos.art.br/monumento/tribuna_livre_da_crianca

Ficha Técnica Material: Cerâmica, tinta específica para cerâmica - Dimensões: 2,50 m X 9,20 m [fonte: Foto, dados e textos da Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô]

ELENA – Através dos e-mails da Folha dos Núcleos, surgiu, a partir de uma colega, uma indicação do filme Elena, o que provocou uma série de comentários. Entre eles, segue abaixo, o de Jussara D. Leite, integrante do Núcleo Pandorga, de Santa Catarina.

"Alielena"

O filme começa com Petra - diretora e irmã de Elena - relatando um sonho onde ela se confunde com Elena. Em uma entrevista, após o lançamento do filme, Petra diz que teve esse sonho em julho de 2009 e que foi muito angustiante por ela não saber se era ela ou Elena quem morria. O sonho é a via régia para o inconsciente, nos disse Freud, e Petra se deixa guiar por ele.

Petra continua sua narrativa de abertura: “Nossa mãe sempre me disse: que eu podia morar em qualquer lugar do mundo, menos Nova York. Que eu podia escolher qualquer profissão, menos ser atriz.”. Da maneira como Petra dispõe sua narrativa relatando o sonho, de entrada, e a seguir mencionando um dito da mãe, me fez pensar que esse dito da mãe tomou o valor de um oráculo para ela, algo que lhe foi dito e que ela não mais esqueceu, que se inscreveu de forma insistente e que, de alguma forma, determinou seus caminhos, desvios, escolhas. Como um destino a ser cumprido.

Quando uma pessoa procura uma análise o analista escuta, em suas palavras, vários enunciados essenciais que vão cingindo um enunciado mais fundamental. No percurso de uma análise o analisante descobre que dedicou sua existência a verificar esse DITO FUNDAMENTAL, seja para confirmá-lo, seja porque se enveredou no sentido de desmenti-lo, ou seja, até que ponto os caminhos e vicissitudes de sua vida são redutíveis ao efeito dessa marca significante. Parece-me que o filme se desenvolve por aí, ao redor dos efeitos da inscrição de uma palavra dita na história de um sujeito, dos efeitos surpreendentes e impressionantes em sua vida.

Petra conta (entrevista disponível no You Tube – Programa Andante – Elena) que, quando estava com cerca de dezoito anos, fazendo um work shop no Teatro da Vertigem, teve a tarefa de montar uma cena a partir de uma frase: “LIVRO DA VIDA”. Diz que, como não tinha orientação religiosa, foi em busca de seu diário e, num baú de livros antigos, achou um diário de Elena. Começou a ler e teve a sensação de se encontrar com “algo como um destino, um destino temeroso. Parecia que eu tinha achado um livro sobre o meu destino e tive muito medo de que fosse acontecer comigo o que aconteceu com Elena”. Petra continua: “E o filme é um pouco a investigação desse medo”. Petra se encontra com um enorme material produzido por Elena: mais de vinte horas de cartas gravadas em fitas cassete, filmes e escritos. Diz que se identifica com a irmã e se confunde aí. E Petra, a partir desse material, se pergunta: “Como será que esse tempo ficou em seu corpo, em sua memória?”.

E nós podemos perguntar:

- O que a linguagem determina no sujeito? Como isso acontece?

- O que a verdade do inconsciente deve à palavra, ao significante?

Sabemos, com Freud e Lacan, que o “mais profundo afeto é regido pela linguagem”. (ESCRITOS, p.367). Acreditamos nos efeitos da fala sobre o corpo. A descoberta de Freud se ordena em torno de algo que o sujeito não consegue nomear e que o reenvia a um vazio. Vazio que Elena toca e alude quando fala que está gorda, que come muito e que o vazio continua. Palavras e atos tentando dar conta do que não fazia sentido em sua existência. Fala de sua decadência: “agora vou me degradar e escorrer por esse ralo”. Elena, que na sua infância viveu a clandestinidade dos pais, chega a sonhar com um OUTRO LUGAR. Philippe Lacadèe fala do adolescente fugitivo que sonha com um outro lugar como forma de fuga ou errância. O OUTRO LUGAR, que atrai os jovens, aparece então como uma possibilidade de nomear o inominável do lugar subjetivo que o jovem habita, uma forma de se separar ou evitar o encontro com o gozo em demasia que perturba o jovem que não pode enuncia-lo. Elena é tomada por esse indizível, inassimilável pelo significante, e desemboca no pior.

Já Petra, faz do indizível, um mistério. Faz um percurso na direção de um mistério a ser decifrado. Segue decidida em busca dessa revelação. Revelação que se impõe de tal forma, toma uma dimensão tão grande, que ela se “alielena”. Petra diz: “Elena tomou uma dimensão tão grande que eu fui desaparecendo”. E ela segue, persegue por um tempo o rastro da ausência da irmã, repetindo, de maneira inconsolável, os ditos marcados em sua memória.

Podemos pensar o filme como uma construção, uma trama imaginária e simbólica tecida como um véu frente ao inominável, ao impossível de suportar do que se revelava como o destino da irmã e também o seu. Petra se engendra aí, tece e desfaz nós até que se separa da irmã e se apropria de um destino seu, singular. Para terminar, Petra diz ao final do filme: “Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra, e é dela que tudo nasce e dança.”.

Como a arte, “a análise é um modo novo e singular de gozar da linguagem e de fazer brotar dela alguma coisa rara!”.

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Coordenação CEREDA: Judith Miller
Coordenação NRCEREDA Brasil: Cristina Vidigal

BOLETIM DA FOLHA DOS NÚCLEOS
Comissão Editorial: Mª Cristina Maia (Editora), Valéria Ferranti, Inês Seabra, Mª do Rosário do Rêgo Barros.

Colaboradores deste número 34: Ana Maria Lopes, Andrea Eulálio, Ceres Leda Félix, Cristiana Gallo, Cristiane Barreto, Cristina Vidigal, Daniela Araújo, Eneida Medeiros, Jussara D. Leite, Lilian Beig, Lucicleia Lopes, Maria Luiza Ricupero, Margarete Couto, Patrícia Ribeiro, Raquel Degenszjn, Tereza Facury, Vanessa Leite.